POLÍCIA CIVIL DO ESTADO DO PARANÁ

POLÍCIA CIVIL DO ESTADO DO PARANÁ

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A agressividade em Psicanálise - JACQUES LACAN

Relatório teórico apresentado no XI Congresso de Psicanálise de Língua Francesa, reunido em Bruxelas em meados de maio de 1948.

O relatório precedente apresentou-lhes o emprego que fazemos da noção de agressividade na clinica e na terapêutica. Resta-me a tarefa de provar perante os senhores se é possível formar dela um conceito tal que ela possa aspirar a um uso cientifico,isto é, apropriado a objetivar fatos de uma ordem comparável na realidade, ou,mais categoricamente, a estabelecer uma dimensão da experiência cujos fatos objetivados possam ser considerados como variáveis.
Todos temos em comum, nesta assembléia, uma experiência fundamentada numa técnica, num sistema de conceitos ao qual somos fiéis, tanto por ele ter sido elaborado por aquele mesmo que nos abriu todos os caminhos dessa experiência, quanto por trazer a marca viva das etapas dessa elaboração. Ou seja, ao sistema permanente aberto, não apenas em seu acabamento, mas em vários de seus pontos de articulação.
Esses hiatos parecem conjugar-se na significação enigmática que Freud promoveu como instinto de morte: testemunho, semelhante a figura da Esfinge, da aporia contra a qual se chocou esse grande pensamento, na mais profunda tentativa já surgida de formular uma experiência do homem no registro da biologia.
Essa aporia está no cerne da noção de agressividade, sobre a qual avaliamos melhor a cada dia o papel que convém atribuir-lhe na economia psíquica.
Eis por que a questão da natureza metapsicológica das tendências mortíferas é incessantemente recolocada em pauta por nossos colegas teóricos, não sem contradição e, freqüentemente, convém dizer, com certo formalismo.
Quero apenas propor-lhes algumas observações ou teses que me foram inspiradas por minhas reflexões de longa data em torno dessa verdadeira aporia da doutrina, e também pelo sentimento que tenho, a partir da leitura de numerosos trabalhos, de nossa responsabilidade na atual evolução da psicologia de laboratório e de tratamento. Penso, por um lado, nas chamadas pesquisas behavoristas, que me parecem dever o melhor de seus resultados (que as vezes se nos afiguram um tanto escassos para o aparato de que se cercam) ao uso, amiúde implícito, que fazem das categorias que a analise trouxe para a psicologia; por outro, nesse gênero de tratamento – quer se dirija aos adultos ou as crianças – que se pode agrupar sob a denominação de tratamento psicodramático, que busca sua eficácia na ab-reação que ele tenta esgotar no plano da dramatização, e onde, mais uma vez, a analise clássica fornece as noções eficazmente diretivas.

TESE I: A agressividade se manifesta numa experiência que é subjetiva por sua própria constituição

Não é inútil, com efeito, voltar ao fenômeno da experiência psicanalítica. Por visar dados primários, essa reflexão é freqüentemente omitida.
Podemos dizer que a ação psicanalítica se desenvolve na e pela comunicação verbal, isto é, numa apreensão dialética do sentido. Ela supõe, portanto, um sujeito que se manifeste como tal para um outro.
Essa subjetividade não nos pode ser objetada como devendo ser obsoleta, conforme o ideal a que satisfaz a física, que a elimina através do aparelho registrador, sem no entanto poder evitar a suspeita do erro pessoal na leitura do resultado.
Somente um sujeito pode compreender um sentido; inversamente, todo fenômeno de sentido implica um sujeito. Na análise, um sujeito se dá como podendo ser compreendido, e de fato o é: a instrospecção e a intuição pretensamente projetiva não constituem aqui, os vícios de princípio que uma psicologia, em seus primeiros passos no caminho da ciência, considerou irredutíveis. Isso equivaleria a transformar em impasse momentos abstratamente isolados do diálogo, quando é preciso fiar-se em seu movimento: foi mérito de Freud ter assumido os riscos deles, antes de dominá-los através de uma técnica rigorosa.
Podem seus resultados fundar uma ciência positiva? Sim, se a experiência for controlável por todos. Ora, constituída entre dois sujeitos, dos quais um desempenha no diálogo um papel de impessoalidade ideal (ponto que requererá mais adiante nossa atenção), a experiência, uma vez consumada, e unicamente sob as condições de capacidade exigíveis para qualquer investigação especial, pode ser retomada pelo outro sujeito com um terceiro. Essa via aparentemente iniciática é apenas uma transmissão por recorrência, com a qual não há por que nos surpreendermos, já que ela se prende a própria estrutura, bipolar, de toda subjetividade. Somente a velocidade de difusão da experiência é afetada por ela, e, se sua restrição a ares de uma cultura e discutível, não só nenhuma antropologia sadia pode extrair disso uma objeção, como tudo indica que seus resultados possam ser suficientemente relativizados para uma generalização que satisfaça ao postulado humanístico, inseparável do espírito da ciência.

TESE II: A agressividade, na experiência, nos é dada como intenção de agressão e como imagem de desmembramento corporal, e é nessas modalidades que se demonstra eficiente

A experiência analítica permite-nos experimentar a pressão intencional. Nós a lemos no sentido simbólico dos sintomas, a partir do momento em que o sujeito renuncia as defesas pelas quais os desvincula das relações que eles mantêm com sua vida cotidiana e com sua historia – na finalidade implícita de suas condutas e suas recusas, nos fracassos de sua ação, na confissão de suas fantasias privilegiadas, nos rébus da vida onírica.
Quase podemos medi-la na modulação reivindicatória que as vezes sustenta todo o discurso, em suas suspensões, suas hesitações, suas inflexões e seus lapsos, nas inexatidões do relato, nas irregularidades da aplicação da regra, nos atrasos para as sessões, nas ausências premeditadas, muitas vezes nas recriminações, nas censuras, nos medos fantasísticos, nas reações emocionais de cólera e nas demonstrações para fins intimidatórios, sendo tão raras as violências propriamente ditas quanto o implicam a conjuntura de apelo que levou ao médico o doente e a transformação dela, aceita por este último, numa convenção de dialogo.
A eficácia própria dessa intenção agressiva é manifesta: nós a constatamos freqüentemente na ação formadora de um individuo sobre as pessoas de sua dependência: a agressividade intencional corrói, mina, desagrega; ela castra; ela conduz a morte: “E eu que acreditava que você era impotente!”, gemia num uivo de tigresa uma mãe a seu filho, que acabara de lhe confessar, não sem dificuldade, suas tendências homossexuais. E pudemos ver que sua permanente agressividade de mulher viril não deixara de surtir efeitos; sempre nos foi impossível, em casos semelhantes, desviar seus ataques da própria empreitada analítica.
Essa agressividade se exerce, é claro, em meio a restrições reais. Mas sabemos por experiência que ela é não menos eficaz pela via da expressividade: um genitor severo intimida pela simples presença, e basta que seja brandida a imagem do Punidor para que a criança a forme. Ela tem repercussões mais amplas do que qualquer sevicia.
Esses fenômenos mentais a que chamamos imagens, termo cujo valor expressivo é confirmado por todas as acepções semânticas, após os perpétuos fracassos registrados pela psicologia de tradição clássica na tarefa de dar conta deles, a psicanálise foi a primeira a se revelar a altura da realidade concreta que eles representam. E que ela partiu da função formadora das imagens no sujeito e revelou que, se as imagens atuais determinam tais ou quais inflexões individuais das tendências, é na condição de variações das matrizes que constituem, para os próprios “instintos”, esses outros específicos que fazemos corresponder a antiga denominação de imago.
Entre estes últimos, há os que representam os vetores eletivos das intenções agressivas, que elas dotam de uma eficácia que podemos chamar de mágica. São as imagens de castração, emasculação, mutilação, desmembramento, desagregação, eventração, devoração, explosão do corpo, em suma, as imagos que agrupei pessoalmente sob a rubrica, que de fato parece estrutural, de imagos do corpo despedaçado.
Há aí uma relação específica do homem com seu próprio corpo, que se manifesta igualmente na generalidade de uma série de práticas sociais – desde os ritos da tatuagem, da incisão e da circuncisão, nas sociedades primitivas, até aquilo que poderíamos chamar de arbitrariedade procustiana da moda, na medida em que ela desmente, nas sociedades avançadas, o respeito as formas naturais do corpo humano, cuja idéia é tardia na cultura.
Basta escutar a fabulação e as brincadeiras das crianças, isoladas ou entre si, entre os dois e os cinco anos, para saber que arrancar a cabeça e furar a barriga são temas espontâneos de sua imaginação, que a experiência da boneca desmantelada só faz satisfazer.
Há que folhear um álbum que reproduza o conjunto e os detalhes da obra de Hieronymus Bosch, para ali reconhecer o atlas de todas as imagens agressivas que atormentam os homens. A prevalência dentre elas, descoberta pela análise, das imagens de uma autoscopia primitiva dos órgãos orais e derivados da cloaca gerou, ali, formas de demônios. Não faltam nem mesmo a ogiva das angustiae do nascimento, que encontramos na porta dos precipícios para onde eles empurram os condenados, nem a estrutura narcísica, que podemos evocar nas esferas de vidro em que se acham aprisionados os parceiros exaustos do jardim das delícias.
Reencontramos incessantemente essas fantasmagorias nos sonhos, particularmente no momento em que a análise parece vir refletir-se no fundo das fixações mais arcaicas. E evocarei o sonho de um de meus pacientes, em quem as fantasias agressivas manifestavam-se por fantasias obsedantes; no sonho, ele se via, perseguido por um peixe voador, cujo corpo de bexiga de ar deixava transparecer um nível de liquido horizontal, imagem de perseguição vesical de grande beleza anatômica.
Todos esses são dados primordiais de uma Gestalt própria da agressão no homem e ligada ao caráter simbólico, não menos do que ao cruel refinamento das armas que ele fabrica, pelo menos no estagio artesanal de sua indústria. Essa função imaginária se esclarecerá em nossas colocações.
Notamos aqui que, ao se tentar uma redução behavorista do processo analítico – coisa a que uma preocupação com o rigor, a meu ver injustificada, impeliria alguns de nós -, ele é mutilado de seus dados subjetivos mais importantes, dos quais as fantasias privilegiadas são as testemunhas na consciência e que nos permitiram conceder a imago, formadora da identificação.

TESE III: Os impulsos de agressividade decidem sobre as razoes que motivam a técnica da análise

O diálogo em si parece constituir uma renúncia a agressividade; a filosofia, desde Sócrates, sempre depositou nele a esperança de fazer triunfar a via racional. E, no entanto, desde o momento em que Trasímaco fez sua retirada demente no começo do grande diálogo da Republica, o fracasso da dialética verbal só tem feito demonstrar-se com imensa freqüência.
Sublinhei que o analista curava pelo diálogo, e curava loucuras igualmente grandes; que virtude, portanto, acrescentou-lhe Freud?
A regra proposta ao paciente na análise deixa-o avançar por uma intencionalidade cega para qualquer outro fim que não sua libertação de um sofrimento ou de uma ignorância dos quais ele nem sequer conhece os limites.
Sua voz é a única a se fazer ouvir, por um tempo cuja duração fica a critério do analista. Particularmente, logo lhe fica patente, e aliás confirmada, a abstenção do analista em lhe responder em qualquer plano de conselho ou projeto. Há nisso um limite que parece ir ao encontro do fim desejado e que deve justificar-se por algum motivo profundo.
Que preocupação condiciona, portanto, diante dele a atitude do analista? A de oferecer ao diálogo um personagem tão desprovido quanto possível de características individuais; nós nos apagamos, saímos do campo em que possam ser percebidos o interesse, a simpatia e a relação buscados por aquele que fala no rosto do interlocutor; evitamos qualquer manifestação de nossos gostos pessoais, escondemos o que pode traí-los, nos despersonalizamos e tendemos, para esse fim, a representar para o outro um ideal de impassibilidade.
Nisso, nós exprimimos apenas a apatia que tivemos de realizar em nós mesmos para estar em condições de compreender nosso sujeito, nem tampouco preparamos o realce de oráculo que, contra esse fundo de inércia, deve assumir nossa intervenção interpretativa.
Queremos evitar uma cilada, que esse apelo já encerra, marcado pelo eterno patético da fé, que o doente nos dirige. Ele comporta um segredo; “Toma para ti”, dizem-nos, “essa dor que pesa sobre meus ombros; mas, satisfeito, sereno e confortável como te vejo, não podes ser digno de portá-la.”
O que aqui aparece como orgulhosa reivindicação do sofrimento mostrará sua face – e, as vezes, num momento tão decisivo que entra na “reação terapêutica negativa” que reteve a atenção de Freud – sob a forma da resistência do amor-próprio, para tomarmos esse termo em toda a profundidade que lhe deu La Rochefocauld, e que amiúde se declara assim: “Não posso aceitar a idéia de ser libertado por outro que não eu mesmo.”
Claro, numa exigência mais insondável do coração, é a participação em seu sofrimento que o doente espera de nós. Mas é a reação hostil que guia nossa prudência, e que já inspirara a Freud sua cautela contra qualquer tentação de bancar o profeta. Somente os santos são suficientemente desprendidos da mais profunda das paixões comuns para evitar os contragolpes agressivos da caridade.
Quanto a citar o exemplo de nossas virtudes e nossos méritos, nunca vi recorrer a isso senão um certo grande padroeiro, totalmente imbuído de uma idéia austera quanto inocente de seu valor apostólico; e penso ainda no furor que ele desencadeou.
Alias, como nos surpreendemos com essas reações, nós que denunciamos os impulsos agressivos ocultos sob todas as chamadas atividades filantrópicas?
Devemos, no entanto, pôr em jogo a agressividade do sujeito a nosso respeito, já que essas intenções, como sabemos, compõem a transferência negativa que é o nó inaugural do drama analítico.
Esse fenômeno representa, no paciente, a transferência imaginária, para nossa pessoa, de uma das imagos mais ou menos arcaicas que, por um efeito de subdução simbólica, degrada, desvia ou inibe o ciclo de uma dada conduta, que, por um acidente de recalque, exclui do controle do eu uma dada função e um dado segmento corporal, que, por uma ação de identificação, deu sua forma a tal instância da personalidade.
Podemos ver que basta o pretexto mais fortuito para provocar a intenção agressiva que reatualiza a imago, instalada permanentemente no plano de sobredeterminação simbólica a que chamamos o inconsciente do sujeito, com sua correlação intencional.
Tal mecanismo revela-se, muitas vezes, extremamente simples na histeria: no caso de uma moça afetada por astasia-abasia, que vinha há meses resistindo ás tentativas de sugestão terapêutica dos mais diversos estilos, meu personagem viu-se imediatamente identificado com a constelação dos mais desagradáveis traços que para ela era concretizada pelo objeto de uma paixão, aliás bastante marcada por um toque delirante. A imago subjacente era a de seu pai, de quem bastou que eu a fizesse observar que lhe faltara o apoio (carência que eu sabia haver efetivamente dominado sua biografia, e num estilo muito romanesco) para que ela se descobrisse curada de seu sintoma, sem que, poderíamos dizer, nada entendesse do que havia acontecido, e sem que a paixão mórbida, aliás, fosse afetada por isso.
Esses nos são mais difíceis de desatar, como se sabe, na neurose obsessiva, justamente pelo fato, muito conhecido por nós, de sua estrutura ser particularmente destinada a camuflar, deslocar, negar, dividir e atenuar a intenção agressiva, e isso segundo uma decomposição defensiva tão comparável, em seus princípios, a ilustrada pela trincheira e pela chicana, que ouvimos vários de nossos pacientes servirem-se, a respeito deles mesmos, de uma referencia metafórica a “fortificações ao estilo de Vauban”.
Quanto ao papel na intenção agressiva na fobia, ele é, por assim dizer, manifesto.
Portanto, não é que seja desfavorável reativar tal intenção na psicanálise.
O que procuramos evitar, através de nossa técnica, é que a intenção agressiva no paciente encontre o apoio de uma idéia atual de nossa pessoa, suficientemente elaborada para que possa organizar-se nas reações de oposição, denegação, ostentação e mentira que nossa experiência nos demonstra serem os modos característicos da instancia do eu no diálogo.
Caracterizo essa instancia, aqui, não pela construção teórica que dela fornece Freud em sua metapsicologia, como sistema percepção-consciência, mas pela essência fenomenológica que ele reconhecer como sendo a sua essência mais constante na experiência, sob o aspecto da Verneinung, e cujos dados ele nos recomenda apreciar no índice mais geral de uma inversão precedente ao juízo.
Em suma, designamos no eu o núcleo dado a consciência, mas opaco a reflexão, marcado por todas as ambigüidades que, da complacência a má-fé, estruturam o sujeito humano a vivencia passional; esse (eu) que, por confessar seu artificialismo a critica existencial, opõe sua irredutível inércia de pretensões e desconhecimento a problemática concreta da realização do sujeito.
Longe de atacá-lo de frente, a maiêutica analítica adota um rodeio que equivale, em suma, a induzir no sujeito uma paranóia dirigida. Com efeito, um dos aspectos da ação analítica é efetuar a projeção do que Melaine Klein denomina de maus objetos internos, mecanismo paranóico, por certo, mas aqui bem sistematizado, filtrado de alguma forma e estancado sob medida.
E é esse o aspecto de nossa práxis que corresponde a categoria do espaço, contanto que ai se compreenda este espaço imaginário onde se desenvolve a dimensão dos sintomas que os estrutura como ilhotas excluídas, escotomas inertes ou automismos parasitários nas funções da pessoa.
A outra dimensão, temporal, correspondem a angustia e sua incidência, seja ela patente, no fenômeno da fuga ou da inibição, seja latente, quando só aparece com a imago motivadora.
Mais uma vez, repetimos, essa imago só se revela desde que nossa atitude ofereça ao sujeito o espelho puro de uma superfície sem acidentes.
Mas, que se imagine, para nos compreender, o que aconteceria com um paciente que visse em seu analista uma réplica exata dele mesmo. Qualquer um sente que o excesso de tensão agressiva criaria tamanho obstáculo a manifestação da transferência, que seu efeito útil só poderia produzir-se com extrema lentidão, e é isso que acontece em certas análises para fins didáticos. Se a imaginarmos, em ultima instância, vivenciada a maneira da estranheza própria das apreensões do duplo, essa situação desencadearia uma angústia incontrolável.

TESE IV: A agressividade é a tendência correlativa a um modo de identificação a que chamamos narcísico, e que determina a estrutura formal do eu do homem e do registro de entidades característico de seu mundo

A experiência subjetiva da análise inscreve prontamente seus resultados na psicologia concreta. Indiquemos apenas o que ela traz para a psicologia das emoções, mostrando a significação comum de estados tão diversos quanto o medo fantasístico, a cólera, a tristeza ativa ou a fadiga psicastênica.
Passar agora da subjetividade da intenção para a noção de uma tendência a agressão é dar o salto da fenomenologia de nossa experiência para a metapsicologia.
Mas, esse salto não manifesta outra coisa senão uma exigência do pensamento que, para objetivar agora o registro das reações agressivas, e na impossibilidade de seriá-lo numa variação quantitativa, tem que integrá-lo numa formula de equivalência. E é assim que nos servimos dele com a noção de libido.
A tendência agressiva se revela fundamental numa certa série de estados significativos da personalidade, que são as psicoses paranóides e paranóicas.
Sublinhei em meus trabalhos que seria possível coordenar, por sua seriação estritamente paralela, a qualidade da reação agressiva que se pode esperar de tal forma de paranóia com a etapa da gênese mental representada pelo delírio sintomático dessa mesma forma. Relação que se afigura ainda mais profunda quando – mostrei isso a respeito de uma forma curável, a paranóia de autopunição – o ato agressivo desfaz a construção delirante.
Assim se coloca em série, de maneira continua, a reação agressiva, desde a explosão tão brutal quanto imotivada do ato, passando por toda a gama das formas de beligerância, até a guerra fria das demonstrações interpretativas, paralelamente as imputações de nocividade que, sem falar do kakon obscuro que a que o paranóide refere sua discordância de qualquer contato vital, vão-se escalonando, desde a motivação do veneno, retirada do registro de um organicismo muito primitivo, até a motivação mágica do malefício, telepática, da influência, lesiva, da intrusão física, abusiva, do desvio da intenção, espoliadora, do roubo do segredo, profanatória, da violação da intimidade, jurídica, do preconceito, persecutória, da espionagem e da intimidação, prestigiosa, da difamação e do ataque a honra, reivindicatória, do prejuízo e da exploração.
Essa série, onde encontramos todos os invólucros sucessivos do status biológico e social da pessoa, mostrei que ela se prendia, em cada caso, a uma organização original das formas do eu e do objeto, que são igualmente afetados por ela em sua estrutura, inclusive nas categorias espacial e temporal em que eles se constituem, vividos como eventos numa perspectiva de miragens,como afecções com um toque de estereotipia que suspende sua dialética.
Janet, que mostrou tão admiravelmente a significação dos sentimentos de perseguição como momentos fenomenológicos das condutas sociais, não lhes aprofundou o caráter comum, que é precisamente que eles se constituem por uma estagnação de um desses momentos, semelhante, em estranheza, a aparência dos atores quando o filme pára de rodar.
Ora, essa estagnação formal é parenta da estrutura mais geral do conhecimento humano: aquela que constitui o eu e os objetos mediante atributos de permanência, identidade e substancialidade, em suma, sob a forma de entidades ou “coisas” muito diferentes das Gestalten que a experiência nos permite isolar no domínio do campo disposto segundo as linhas do desejo animal.
Efetivamente, essa fixação formal que introduz uma certa ruptura de plano, uma certa discordância entre o organismo do homem e seu Umwelt, é a própria condição que amplia indefinidamente seu mundo e sua potencia, dando a seus objetos sua polivalência instrumental e sua polifonia simbólica, bem como seu potencial de armamento.
O que chamei de conhecimento paranóico demonstra pois corresponder, em suas formas mais ou menos arcaicas, a certos momentos críticos que escandem a historia da gênese mental do homem e que representam, cada um, uma etapa da identificação objetivante.
Podemos entrever, pela simples observação, suas etapas na criança, onde uma Charlotte Buhler, uma Elsa Kohler e, depois delas, a escola de Chicago mostram-nos vários planos de manifestações significativas, mas as quais somente a experiência analítica pode dar seu valor exato, permitindo reintegrar nelas a relação subjetiva.
O primeiro plano mostra-nos que a experiência de si próprio na criança de tenra idade, na medida em que ela se refere a seu semelhante, desenvolve-se a partir de uma situação vivida como indiferenciada. Assim, por volta dos oito meses de idade, nos confrontos entre crianças – que, convém notar, para serem fecundos, quase que só permitem dois meses de distancia etária -, vemos os gestos de ações fictícias com que um sujeito acompanha o esforço imperfeito do gesto do outro, confundindo sua aplicação distinta: as sincronias da captação especular, mais notáveis ainda por se anteciparem a completa coordenação dos aparelhos motores que elas empregam.
Assim, a agressividade que se manifesta nas retaliações de tapas e socos não pode ser apenas tomada por uma manifestação lúdica de exercício das forcas e de seu emprego para o referenciamento do corpo. Ela deve ser compreendida numa ordem de coordenação mais ampla: a que subordinara as funções de posturas tônicas e de tensão vegetativa a uma relatividade social cuja prevalência Walton sublinhou consideravelmente na constituição expressiva das emoções humanas.
Mais ainda, eu mesmo creio ter conseguido destacar que a criança, nessas ocasiões, antecipa no plano mental a conquista da unidade funcional de seu próprio corpo, ainda inacabado, nesse momento, no plano da motricidade voluntária.
Há mais uma primeira captação pela imagem, onde se esboça o primeiro momento da dialética das identificações. Ele esta ligado a um fenômeno de Gestalt, a percepção muito precoce, na criança, da forma humana, forma esta que, como sabemos, fixa seu interesse desde os primeiros meses e mesmo, no que tange ao rosto humano, desde o décimo dia de vida. Mas o que demonstra o fenômeno de reconhecimento que implica a subjetividade são os sinais de jubilação triunfante e o ludismo de discernimento que caracterizam, desde o sexto mês, o encontro com sua imagem no espelho pela criança. Essa conduta contrasta vivamente com a indiferença manifestada pelos animais que percebem essa imagem, como o chimpanzé, por exemplo, quando eles tem a experiência de sua inutilidade objetal, e ganha ainda mais destaque por se produzir numa idade em que a criança ainda apresenta, quanto ao nível de sua inteligência instrumental, um atraso em relação ao chimpanzé, com quem só se iguala aos onze meses.
O que chamei de estádio do espelho tem o interesse de manifestar o dinamismo afetivo pelo qual o sujeito se identifica primordialmente com a Gestalt visual de seu próprio corpo: ela é, em relação a descoordenação ainda muito profunda de sua própria motricidade, uma unidade ideal, uma imago salutar; é valorizada por todo o desamparo original, ligado a discordância intra-orgânica e relacional do filhote do homem durante os primeiros seis meses de vida, nos quais ele traz os sinais, neurológicos e humorais, de uma prematuração natal fisiológica.
E essa captação pela imago da forma humana, mais do que uma Einfuhlung cuja ausência tudo vem demonstrar na primeira infância, que domina, entre os seis meses e os dois anos e meio, toda a dialética do comportamento da criança na presença de seu semelhante. Durante todo esse período, registram-se as reações emocionais e os testemunhos articulados de um transitivismo normal. A criança que bate diz que bateram nela, a que vê cair, chora. Do mesmo modo, e numa identificação com o outro que ela vive toda a gama das reações de imponência e ostentação, cuja ambivalência estrutural suas condutas revelam com evidencia, escravo identificado com o déspota, ator com o espectador, seduzido com o sedutor.
Há nisso uma espécie de encruzilhada estrutural onde devemos acomodar nosso pensamento, para compreender a natureza da agressividade no homem e sua relação com o formalismo de seu eu e de seus objetos. Essa relação erótica, em que o individuo humano se fixa numa imagem que o aliena em si mesmo, eis ai a energia e a forma donde se origina a organização passional que ele irá chamar de seu eu.
Essa forma se cristalizara, com efeito, na tensão conflitiva interna ao sujeito, que determina o despertar de seu desejo pelo objeto do desejo do outro: aqui, o concurso primordial se precipita numa concorrência agressiva, e é dela que nasce a tríade do outro, do eu e do objeto, que, fendendo o espaço da comunhão especular, inscreve-se nela segundo um formalismo que lhe é próprio, e que domina a tal ponto a Einfuhlung afetiva que a criança nessa idade pode desconhecer a identidade das pessoas que lhe são mais familiares, caso elas lhe apareçam num meio inteiramente modificado.
Mas, se já desde a origem o eu se afigura marcado por essa relatividade agressiva, onde os espíritos carentes de objetividade poderão reconhecer as ereções emocionais provocadas no animal a quem um desejo vem solicitar lateralmente, no exercício de seu condicionamento experimental, como não conceber que cada grande metamorfose instintiva a escandir a vida do individuo irá novamente questionar sua delimitação, feita da conjunção da historia do sujeito com o impensável inatismo de seu desejo?
Eis por que nunca, a não ser num limite do qual os maiores gênios jamais puderam aproximar-se, o eu do homem é redutível a sua identidade vivida: e, nas disrupções depressivas dos revezes vivenciados da inferioridade, ele gera essencialmente as negações mortais que o fixam em seu formalismo. “Não sou nada do que me acontece. Não és nada que tenha valor.”
Do mesmo modo,confundem-se os dois momentos em que o sujeito nega a si mesmo e acusa o outro, e neles descobrimos a estrutura paranóica do eu que encontra sua analogia nas negações fundamentais valorizadas por Freud nos três delírios, o do ciúme, o da erotomania, e o de interpretação. Trata-se, justamente, do delírio da bela alma misantrópica, que rechaça para o mundo a desordem que compõem seu ser.
A experiência subjetiva deve ser habilitada de pleno direito a reconhecer o nó central da agressividade ambivalente que nosso momento cultural nos dá sob a forma dominante do ressentimento, inclusive em seus aspectos mais arcaicos na criança. Assim, por ter vivido num momento semelhante e por não ter tido que sofrer com a resistência behavorista, no sentido que nos é próprio, santo Agostinho antencipou-se a psicanálise, dando-nos uma imagem exemplar de tal comportamento nestes termos: “Vidi ego et expertus sum zelantem parvulum: nondum loquebatur et intuebatur pallidus amaro aspectu conlactaneum suum” – “Vi com meus olhos e conheci bem uma criancinha tomada de ciúme: ainda não falava e já contemplava, pálida e com uma expressão amarga, seu irmão de leite.” Assim liga ele imperecivelmente, a etapa infans (anterior a fala) da primeira infância, a situação da absorção especular: a criança contemplava, reação emocional; inteiramente pálida, reativação das imagens da frustração primordial; e com uma expressão amarga, que são as coordenadas psíquicas e somáticas da agressividade original.
Foi somente a sra. Melaine Klein que, trabalhando com a criança bem no limite do surgimento da linguagem, ousou projetar a experiência subjetiva nesse período anterior, onde, no entanto, a observação nos permite afirmar sua dimensão, no simples fato, por exemplo, de que uma criança que não fala reage diferentemente a um castigo e a uma brutalidade.
Através dela, ficamos sabendo da função do recinto imaginário primordial formado pela imago do corpo materno; através dela temos a cartografia, desenhada pela mão das próprias crianças, de seu império interior, e o atlas histórico das divisões intestinas em que as imagos do pai e dos irmãos reais ou virtuais, em que a agressão voraz do próprio sujeito, negociam sua dominação deletéria sobre suas regiões sagradas. Sabemos também da persistência, no sujeito, da sombra dos maus objetos internos, ligados a alguma associação acidental (para usar um termo do qual seria bom valorizarmos o sentido orgânico que nossa experiência lhe confere, em oposição ao sentido abstrato que ele preserva da ideologia humana). Através disso, podemos compreender por quais impulsos estruturais a reevocação de certas personae imaginárias e a reprodução de certas inferioridades situacionais podem desnortear , da maneira mais rigorosamente previsível, despedaçadora na imago da identificação original.
Ao nos mostrar a primordialidade da “posição depressiva”, o extremo arcaísmo da subjetivação de um kakon, Melanie Klein alarga os limites em que podemos ver em ação a função subjetiva da identificação e, particularmente, permite-nos situar como totalmente original a formação primaria do supereu.
Mas, precisamente, há um interesse em delimitar a orbita em que se ordenam, para nossa reflexão teórica, as relações, que se acham longe de estar todas elucidadas, da tensão de culpa da nocividade oral, da fixação hipocondríaca e ate mesmo desse masoquismo primordial que excluímos de nossos propósitos para disso tudo isolar a noção de uma agressividade ligada a relação narcísica e as estruturas de desconhecimento e objetivação sistemáticos que caracterizam a formação do eu.
A Urbild dessa formação, embora alienante por sua função externalizadora, corresponde uma satisfação própria, que se prende a integração de uma desordem orgânica original, satisfação esta que convém conceber na dimensão de uma deiscência vital constitutiva do homem, e que torna impensável a idéia de um meio que lhe seja previamente formado, libido “negativa” que faz resplandecer novamente a idéia heraclitiana da Discórdia, sustentada pelo efésio como anterior a harmonia.
Nenhuma duvida de que ela provem da “paixão narcísica”, desde que se conceba o eu segundo a noção subjetiva que aqui promovemos por ser conforme ao registro de nossa experiência; as dificuldades teóricas encontradas por Freud parecem-nos prender-se, com efeito, a esta miragem de objetivação, herdada da psicologia clássica, que se constitui pela idéia do sistema percepção-consciencia, e onde de repente parece ignorada a realidade de tudo o que o eu negligencia, escotomiza e desconhece nas sensações que o fazem reagir a realidade, bem como de tudo o que ele ignora, silencia e ata nas significações que recebe da linguagem: desconhecimento bastante surpreendente a desencaminhar o próprio homem que soubera forçar os limites do inconsciente pelo poder de sua dialética.
Assim como a opressão insensata do supereu esta na raiz dos imperativos motivados da consciência moral, a paixão desvairada, que especifica o homem, por imprimir na realidade sua imagem, é o fundamento obscuro das mediações racionais da vontade.
A noção de uma agressividade como tensão correlata a estrutura narcísica no devir dos sujeito permite compreender, numa função formulada com muita simplicidade, toda sorte de acidentes e atipias desse devir.
Indicaremos aqui como concebemos sua ligação dialética com a função do complexo de Édipo. Esta, em sua normalidade, e de sublimação, que designa muito exatamente uma reformulação identificatória do sujeito e, como escreveu Freud tão logo sentiu a necessidade de uma coordenação “tópica” dos dinamismos psíquicos, uma identificação secundária, por introjeção da imago do genitor do mesmo sexo.
A energia dessa identificação é dada pelo primeiro surgimento biológico da libido genital. Mas é claro que o efeito estrutural de identificação com o rival não é evidente, a não ser no plano da fábula, e só e concebível se tiver sido preparado por uma identificação primária que estrutura o sujeito como rival de si mesmo. De fato, o toque de impotência biológica encontra-se aqui, assim como o efeito de antecipação característico da gênese do psiquismo humano, na fixação de um “ideal” imaginário, que a análise mostrou decidir sobre a conformação do “instinto” ao sexo fisiológico do individuo. Ponto, diga-se de passagem, cuja importância antropológica seria impossível sublinharmos em demasia. Mas, o que nos interessa aqui é a função, que chamaremos apaziguadora, do ideal do eu, a conexão de sua normatividade libidinal com uma normatividade cultural, ligada desde o alvorecer da história a imago do pai. Nisso jaz, evidentemente, a importância preservada por uma obra de Freud, Totem e tabu, malgrado o círculo mítico que a vicia, na medida em que ela faz derivar do evento mitológico, isto é, do assassinato do pai, a dimensão subjetiva que lhe dá sentido, a culpa.
Freud, com efeito, mostra-nos que a necessidade de uma participação que neutralize o conflito, inscrito, após o assassinato, na situação de rivalidade entre os irmãos, é o fundamento da identificação com o Totem paterno. Assim, a identificação edipiana é aquela através da qual o sujeito transcende a agressividade constitutiva da primeira individuação subjetiva. Insistimos em outra ocasião no passo que ela constitui na instauração dessa distância pela qual, com sentimentos da ordem do respeito, realiza-se toda uma assunção afetiva do próximo.
Somente a mentalidade antidialética de uma cultura que, por ser dominada por fins objetivantes, tende a reduzir ao ser do eu toda a atividade subjetiva, pode justificar o assombro produzido num van den Steinen pelo bororo que profere: “Eu sou uma arara”. E todos os sociólogos da “mentalidade primitiva” esfalfam-se em torno dessa profissão de identidade, a qual, no entanto, nada tem de mais surpreendente para a reflexão senão afirmar “Eu sou médico”, ou “Sou cidadão da republica francesa”, e com certeza apresenta menos dificuldades lógicas do que promulgar “Eu sou um homem”, o que, em seu pleno valor, só pode querer dizer isto: “Sou semelhante aquele em quem, ao reconhecê-lo como homem, baseio-me para me reconhecer como tal.” Essas diversas fórmulas só são compreensíveis, no final das contas, em referencia a verdade do ”Eu é um outro” , menos fulgurante na intuição do poeta do que evidente aos olhos do psicanalista.
Quem, senão nós, há de questionar o status objetivo desse (eu) que uma evolução histórica própria de nossa cultura tende a confundir com o sujeito? Essa anomalia mereceria ser manifestada em suas incidências particulares em todos os planos da linguagem, e, para começar, no sujeito gramatical da primeira pessoa em nossas línguas, nesse “eu amo” que hipostasia a tendência de um sujeito que a nega. Miragem impossível, em formas lingüísticas entre as quais se alinham as mais antigas, e onde o sujeito aparece fundamentalmente na posição de determinativo ou de instrumento da ação.
Deixemos por aqui a critica de todos os abusos do cogito ergo sum, para lembrar que o eu, em nossa experiência, representa o centro de todas as resistências ao tratamento dos sintomas.
Tinha de acontecer que a analise, depois de haver enfatizado a reintegração das tendências excluídas pelo eu, como subjacentes aos sintomas que ela havia atacado inicialmente, em sua maioria ligados aos fracassos da identificação edipiana, viesse a desvendar a dimensão “moral” do problema.
E foi paralelamente que vieram para o primeiro plano, de um lado, o papel desempenhado pelas tendências agressivas na estrutura dos sintomas e da personalidade, e de outro, toda sorte de concepções “valorizadas” da libido liberada, dentre as quais uma das primeiras deveu-se aos psicanalistas franceses, sob o registro da oblatividade.
Está claro, com efeito, que a libido genital se exerce no sentido de um ultrapassamento, aliás cego, do individuo em prol da espécie, e que seus efeitos sublimadores na crise do Édipo estão na origem de todo o processo de subordinação cultural do homem. Não obstante, seria impossível enfatizarmos em demasia o caráter irredutível da estrutura narcísica, bem como a ambigüidade de uma noção que tenderia a desconhecer a constância da tensão agressiva em toda vida moral que comporte a sujeição a essa estrutura: ora, nenhuma oblatividade poderia liberar seu altruísmo. E foi por isso que La Rochefoucauld pôde formular sua máxima, na qual seu rigor harmoniza-se com o tema fundamental de seu pensamento, sobre a incompatibilidade entre o casamento e os prazeres.
Deixaríamos degradar-se a contundência de nossa experiência ao nos enganarmos, senão a nossos pacientes, quanto a alguma harmonia preestabelecida que isentasse de qualquer indução agressiva, no sujeito, os conformismos sociais que a redução dos sintomas torna possíveis.
E uma perspicácia diferente mostraram os teóricos da Idade Média, que debatiam o problema do amor entre dois pólos, o de uma teoria “física” e o de uma teoria “extática”, ambos implicando a reabsorção do eu do homem, quer por sua reintegração num bem universal, quer pela efusão do sujeito para um objeto sem alteridade.
E é em todas as fases genéticas do individuo, em todos os graus de realização humana em sua pessoa, que encontramos esse momento narcísico no sujeito, num antes em que ele deve assumir uma frustração libidinal e num depois em que ele transcende a si mesmo numa sublimação normativa.
Essa concepção faz-nos compreender a agressividade implicada nos efeitos de todas as regressões, de todos os abortamentos, de todas as recusas do desenvolvimento típico do sujeito, e especialmente no plano da realização sexual, ou,mais exatamente, no interior de cada uma das grandes fases determinadas na vida humana pelas metamorfoses libidinais cuja grande função a analise demonstrou: desmame. Édipo, puberdade, maturidade, ou maternidade, ou mesmo, clímax involutivo. E dissemos, muitas vezes, que a ênfase inicialmente depositada pela doutrina nas represálias agressivas do conflito edipiano no sujeito correspondeu ao fato de que os efeitos do complexo foram inicialmente percebidos nos fracassos de sua solução.
Não e preciso salientar que uma teoria coerente da fase narcísica esclarece a realidade da ambivalência própria das “pulsões parciais” da escopofilia, do sadomasoquismo e da homossexualidade, assim como o formalismo estereotipado e cerimonial da agressividade que neles se manifesta: visamos aqui o aspecto, freqüentemente muito pouco “reconhecido”, da apreensão do outro no exercício de algumas dessas perversões, a seu valor subjetivo, a rigor bem diferente das reconstruções existenciais, alias muito cativantes, que um Jean-Paul Sartre soube fornecer dela.
Quero ainda indicar de passagem que a função decisiva que conferimos a imago do corpo próprio, na determinação da fase narcísica, permite compreender a relação clinica entre as anomalias congênitas da lateralização funcional (sinistrismo) e todas as formas de inversão da normalização sexual e cultural. Isso nos lembra o papel atribuído a ginástica no ideal do “belo e bom” da educação antiga, e nos leva a tese social com que concluimos.

TESE V: Tal noção da agressividade, como uma das coordenadas intencionais do eu humano, e especialmente relativa a categoria do espaço, faz conceber seu papel na neurose moderna e no mal-estar da civilização

Queremos aqui apenas descortinar uma perspectiva sobre os vereditos que nos permite nossa experiência na ordem social atual. A preeminência da agressividade em nossa civilização já estaria suficientemente demonstrada pelo fato de ela ser habitualmente confundida, na moral mediana, com a virtude da força. Compreendida, mui justificadamente, como significativa de um desenvolvimento do eu, ela é tida como sendo de um uso social indispensável, e tão comumente aceita nos costumes que, para aquilatar sua particularidade cultural, é preciso nos imbuirmos do sentido e das virtudes eficazes de uma pratica como a do jang na moral publica e privada dos chineses.
Ainda que isso fosse supérfluo, o prestigio da idéia da luta pela vida seria suficientemente atestado pelo sucesso de uma teoria que conseguiu tornar aceitável a nosso pensamento, como explicação valida dos desenvolvimentos da vida, uma seleção baseada na simples conquista do espaço pelo animal. Do mesmo modo, o sucesso de Darwin parece dever-se a ele haver projetado as predações da sociedade vitoriana e a euforia econômica que sancionou a devastação social que ela inaugurou em escala planetária, e a havê-las justificado pela imagem de um laissez-faire dos devoradores mais fortes em sua competição por sua presa natural.
Antes dele, no entanto, Hegel havia fornecido a teoria perene da função própria da agressividade na ontologia humana, parecendo profetizar a lei férrea de nossa época. Foi do conflito entre o Senhor e o Escravo que ele deduziu todo o progresso subjetivo e objetivo de nossa historia, fazendo surgir dessas crises as sínteses que representam as formas mais elevadas do status da pessoa no Ocidente, do estóico ao cristão, e ate ao futuro cidadão do Estado Universal.
Aqui, o individuo natural é tido por nada, já que o sujeito humano efetivamente o é diante do Senhor absoluto que lhe é dado na morte. A satisfação do desejo humano só e possível se mediatizada pelo desejo e pelo trabalho do outro. Se, no conflito entre o Senhor e o Escravo, é o reconhecimento do homem pelo homem que esta em jogo, é também numa negação radical dos valores naturais que ele é promovido, ou seja, que se exprime na tirania estéril do senhor ou na tirania fecunda do trabalho.
A relativização de nossa sociologia, pela compilação cientifica das formas culturais que destruímos no mundo, e igualmente as análises, marcadas por traços verdadeiramente psicanalíticos, em que a sabedoria de um Platão nos mostra a dialética comum as paixões da alma e da pólis, podem esclarecer-nos sobre a razão dessa barbárie. Trata-se, para dize-lo no jargão que corresponde a nossas abordagens das necessidades subjetivas do homem, da ausência crescente de todas as saturações do supereu e do ideal do eu que são realizadas em todo tipo de formas orgânicas das sociedades tradicionais, formas estas que vão dos ritos da intimidade cotidiana as festas periódicas em que se manifesta a comunidade. Já não as conhecemos senão sob os aspectos mais nitidamente degradados. Mais ainda, por abolir a polaridade cósmica dos princípios masculino e feminino, nossa sociedade conhece todas as incidências psicológicas próprias do chamado fenômeno moderno da luta entre os sexos. Comunidade imensa, no limite entre a anarquia “democrática” das paixões e seu nivelamento desesperado pelo “grande zangão alado” da tirania narcísica, está claro que a promoção do eu em nossa existência leva, conforme a concepção utilitarista do homem que a secunda, a realizar cada vez mais o homem como individuo, isto é, num isolamento anímico sempre mais aparentado com sua derrelição original.
Correlativamente, ao que parece, ou seja, por razoes cuja contingência histórica repousa numa necessidade que algumas de nossas considerações permitem discernir, estamos engajados num projeto técnico em escala da espécie: o problema é saber se o conflito entre o Senhor e o Escravo encontrará sua solução no serviço do autômato, se uma psicotécnica que já se revela prenhe de aplicações cada vez mais precisas se empenhará em fornecer condutores de bólidos e supervisores de centrais reguladoras.
A noção do papel da simetria espacial na estrutura narcísica do homem é essencial para lançar as bases de uma análise psicológica do espaço, da qual só podemos aqui indicar o lugar. Digamos que a psicologia animal revelou-nos que a relação do individuo com um certo campo espacial é, em algumas espécies, socialmente demarcada, de uma maneira que a eleva a categoria do pertencimentos subjetivo. Diremos que é a possibilidade subjetiva da projeção especular de tal campo no campo do outro que confere ao espaço humano sua estrutura originalmente “geométrica”, estrutura que preferíamos chamar de caleidoscópica.
Assim é, pelo menos, o espaço onde se desenvolve o conjunto de imagens do eu, e que vem juntar-se ao espaço objetivo da realidade. Mas porventura ele nos oferece uma base garantida? No próprio “espaço vital” onde se desenvolve a competição humana sempre mais acirrada, um observador estelar de nossa espécie concluiria por necessidades de evasão de efeitos singulares. Mas, acaso a extensão conceitual a que acreditamos ter conseguido reduzir o real na parece recusar ainda mais seu apoio ao pensamento fisicalista? Assim, por ter levado nosso domínio aos confins da matéria, não ira esse espaço “realizado” , que nos faz parecerem ilusórios os grandes espaços imaginários onde se movimentavam as livres fantasias dos antigos sábios, por sua vez, desvanecer-se num bramido do fundo universal?
Sabemos, de qualquer modo, por onde procede nossa adaptação a essas exigências, e que a guerra revela-se cada vez mais a parteira obrigatória e necessária de todos os progressos de nossa organização. Seguramente, a adaptação dos adversários em sua oposição social parece progredir para um concurso de formas, porem podemos indagar-nos se este é motivado por uma aliança na necessidade ou pela identificação cuja imagem Dante nos mostra, em seu Inferno, num beijo mortal.
Alem do mais, não parece que o individuo humano, como material de tal luta, seja absolutamente infalível. E a detecção dos “maus objetos internos”, responsáveis pelas reações (que podem ser muito caras em equipamentos) de inibição e escalada dos acontecimentos, detecção a qual recentemente aprendemos a proceder mediante os elementos das tropas de choque, da aviação de caça, do pára-quedas e dos grupos de assalto, prova que a guerra, depois de muito nos haver ensinado sobre a gênese das neuroses, mostra-se talvez exigente demais em matéria de sujeitos cada vez mais neutros numa agressividade cujo patético é indesejável.
Não obstante, também quanto a isso temos algumas verdades psicológicas a introduzir, quais sejam, o quanto o pretenso “instinto de conservação” do eu tende a enfraquecer na vertigem da dominação do espaço e, sobretudo, o quanto medo da morte, do “Senhor absoluto”, suposto na consciência por toda uma tradição filosófica desde Hegel, esta psicologicamente subordinado ao medo narcísico da lesão do corpo próprio.
Não nos parece vão ter sublinhado a relação mantida com a dimensão do espaço por uma tensão subjetiva, que, no mal-estar da civilização, vem corroborar a da angustia, tão humanamente abordada por Freud, e que se desenvolve na dimensão temporal. Também a esta esclareceríamos facilmente por significações contemporâneas de duas filosofias que corresponderiam as que acabamos de evocar: a de Bergson, por sua insuficiência naturalista, e a de Kierkegaard, por sua significação dialética.
Somente no cruzamento dessas duas tensões dever-se-ia contemplar a assunção, pelo homem, de seu despedaçamento original, mediante o que podemos dizer que a cada instante ele constitui seu mundo através de seu suicídio, e cuja experiência psicológica Freud teve a audácia de formular, por mais paradoxal que seja sua expressão em termos biológicos, isto é, como “instinto de morte”.
No homem “liberado” da sociedade moderna, eis que esse despedaçamento revela, at é o fundo do ser, sua pavorosa fissura. E a neurose de autopunição, com os sintomas histérico-hipocondríacos de suas inibições funcionais, com as formas psicastênicas de suas desrealizações do outro e do mundo, com suas conseqüências sociais de fracasso e de crime. E essa vitima comovente, evadida de alhures, inocente, que rompe com o exílio que condena o homem moderno a mais assustadora galé social, que acolhemos quando ela vem a nós; é para esse ser de nada que nossa tarefa cotidiana consiste em reabrir o caminho de seu sentido, numa fraternidade discreta em relação a qual sempre somos por demais desiguais.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

REGISTRO E DENUNCIA

Internet tem 250 denúncias de crime por dia
Sites de relacionamento social são os campeões de problemas. Pornografia infantil responde por 63% dos casos

Pornografia infantil, pedofilia, racismo, neonazismo, intolerância religiosa, apologia e incitação a crimes contra a vida, homofobia e maus-tratos contra os animais. Todos os dias, as autoridades brasileiras são informadas de 250 novos crimes como esses cometidos via internet. No ano passado inteiro, foram 91 mil casos que chegaram à Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos – número 110% maior do que as 43 mil denúncias de 2006.
A Central de Denúncias, mantida pela ONG SaferNet e pelo Ministério Público Federal, diz que 90% dos casos registrados têm origem nas redes de relacionamento social. A pornografia infantil é o crime mais comum: corresponde a 63% do total.
Daniel Derevecki/Gazeta do Povo

O delegado Rubens Recalcatti, de Araucária: exposição diária na rede de computadores.
Dicas para os pais
Os pais têm uma falsa sensação de controle do conteúdo acessado pelos filhos na internet, constata a pedagoga e consultora em Tecnologia Responsável, Danielle Lourenço. Ela explica que a ideia equivocada faz que muitos pais nem se preocupem com o assunto. “A internet promove ações socializadoras, acesso ao conhecimento, estimula a escrita, o raciocínio lógico, a capacidade de concentração, abre mil janelas para o mundo, desde que utilizada de modo correto e com supervisão constante dos pais”, afirma. Confira algumas dicas da pedagoga:
• Deixe o computador num cômodo “público” da casa, como sala de estar ou escritório. Isso inibe ações inadequadas e facilita o acompanhamento.
• Sente-se com seu filho em frente ao computador e peça que ele mostre quais os sites que visita, seus amigos do MSN, seu blog. Muitos especialistas recomendam que crianças e adolescentes não entrem em sites de relacionamento. Se você permitir que eles entrem, veja a página do perfil.
• Limite o tempo de uso da web. Uma a duas horas por dia, em período letivo, é mais do que suficiente.
• Todo dia a internet tem novidades e novos perigos. Ficar de olho nos sites que o filho acessa e acompanhá-lo na navegação é um exercício de amor e paciência.
• Denúncias recebidas contra os direitos humanos na internetO Ministério Público Federal, aliás, credita o crescimento de investigações de crimes cibernéticos ao acordo feito em julho de 2008 com o Google, empresa dona do Orkut. A empresa passou a encaminhar regularmente às autoridades páginas que contivessem pornografia infantil.
Investigação
As denúncias recebidas são encaminhadas para o Ministério Público, que instaura procedimentos para investigação. O número de procedimentos abertos pelo órgão aumentou 318% em um ano. Foram 620 investigações em 2007 contra 1.975 em 2008.
Além dos crimes contra os direitos humanos, violações como ameaça, calúnia, difamação, injúria e falsa identidade têm se tornado comuns na internet. Porém, não aparecem nas estatísticas da Central de Denúncias.
O delegado-titular do Núcleo de Combate aos Cibercrimes (Nuciber), Demétrius de Oliveira, confirma o aumento dos casos. “Criminosos também são ligados à tecnologia”, afirma. Ele recebe casos que vão desde falsa identidade até extorsão feita pela internet, passando por uso de informações pessoais e difamação on-line.
O próprio delegado é, inclusive, erroneamente citado no Orkut. Numa comunidade denominada Nuciber Paraná, o criador pede para que os internautas enviem denúncias ao delegado. Mas as denúncias enviadas pelo Orkut não chegam ao Nuciber. “Não é um site oficial”, diz o delegado.
Exposição
Muitos crimes ocorreram por descuido das vítimas. O delegado Oliveira orienta usuários a não expor informações pessoais nem fotos. Nas comunidades de relacionamento, que borbulham de acessos, a exposição é constante. Para quem não conhece, um site de relacionamento funciona assim: a pessoa se cadastra, cria um perfil, descreve-se, coloca sua foto e vai em busca de mais amigos. Sem querer, o usuário fornece informações preciosas para quem está mal intencionado.
Segundo a pedagoga e consultora em Tecnologia Responsável Danielle Lourenço, muitos internautas divulgam dados sobre sua vida pessoal. “Fotos de rosto, escola onde estudam e ainda marcam ‘baladas’”, critica Danielle.

REGISTRO DE CASO

Chacina deixa quatro mortos em Araucária

De acordo com o delegado Rubens Recalcatti, um dos moradores da casa é apontado entre os suspeitos e o motivo do crime, como quase sempre acontece, estaria ligado ao tráfico de drogas
Das Agências


Quatro pessoas, entre elas duas mulheres, foram assassinadas dentro de uma casa, no bairro Jardim Sol Nascente, em Araucária, região metropolitana de Curitiba, na madrugada desta segunda-feira (12). De acordo com o delegado Rubens Recalcatti, um dos moradores da casa é apontado entre os suspeitos e o motivo do crime, como quase sempre acontece, estaria ligado ao tráfico de drogas.

O caso aconteceu por volta das 4h30, em uma residência localizada na Rua Beija-Flor. Dois casais foram assassinados. A Polícia Civil os identificou como Eliel Marçal Oliveira, de 20 anos, que era namorado de Josiele Nascimento de Lima, 16 anos, e Elevir Nascimento de Lima, 19, namorado de Franciele Cruz Mesquita, 18. Segundo o delegado, Fran era traficante de drogas. “Sem dúvida o crime está relacionado com o narcotráfico”, diz. Recalcatti também afirmou que o local era conhecido como ponto de tráfico, apesar de a polícia não ter encontrado nenhum indício físico, como cachimbos de crack.

De acordo com Recalcatti, nenhum dos quatro parece ter esboçado reação no momento dos disparos. “Eles certamente estavam dormindo quando foram assassinados”, afirma. O delegado conclui ainda que o crime foi cometido por mais de uma pessoa, já que os dois casais estavam em quartos diferentes e teriam sido executados ao mesmo tempo. Outro indício de múltipla autoria é que foram feitos mais de 50 tiros de três tipos calibres de armas: 765, 380 e 22. Todos os celulares das vítimas foram levados.

Uma quinta pessoa estava na casa, mas não chegou a ser atingida. A testemunha, identificada como Ivanilde, foi a primeira a ser ouvida por Recalcatti. “Até agora ela disse apenas que tomou um remédio para dormir e que não chegou a escutar nada”, conta o delegado. Segundo informações da polícia, a casa onde ocorreu a chacina foi alugada há cerca de um mês pela mulher que sobreviveu, que seria amiga de Fran. Rubens Recalcatti também informou que outro morador da casa Paulo Roberto do Nascimento Diniz, o Paulista, de 27 anos, está foragido e é apontado como um dos suspeitos pelo crime.

Em entrevista ao programa Tribuna da Massa, da Rede Massa, o secretário estadual da segurança pública, Luiz Fernando Delazari, lamentou o ocorrido. “Quem mexe com o tráfico de drogas corre risco de morrer a qualquer momento”, disse. “Para o Estado, isso é uma derrota. Perdemos a educação dessa pessoa, a qualidade de vida, do emprego, da geração de renda; é uma vida humana que se foi”.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

COMO VEJO O MUNDO - ALBERT EINSTEIN

COMO VEJO O MUNDO

Minha condição humana me fascina. Conheço o limite de minha existência e ignoro por que estou nesta terra, mas as vezes o pressinto. Pela experiência cotidiana, concreta e intuitiva, eu me descubro vivo para alguns homens, porque o sorriso e a felicidade deles me condicionam inteiramente, mas ainda para outros que, por acaso, descobri terem emoções semelhantes as minhas.
E cada dia, milhares de vezes, sinto minha vida – corpo e alma – integralmente tributária do trabalho dos vivos e dos mortos. Gostaria de dar tanto quanto recebo e não paro de receber. Mas depois experimento o sentimento satisfeito de minha solidão e quase demonstro má consciência ao exigir ainda alguma coisa de outrem. Vejo os homens se diferenciarem pelas classes sociais e sei que nada as justifica a não ser pela violência. Sonho ser acessível e desejável para todos uma vida simples e natural, de corpo e de espírito.
Recuso-me a crer na liberdade e neste conceito filosófico. Eu não sou livre, e sim as vezes constrangido por pressões estranhas a mim, outras vezes por convicções intimas. Ainda jovem, fiquei impressionado pela máxima de Schopenhauer: “O homem pode, é certo, fazer o que quer, mas não pode querer o que quer”; e hoje, diante do espetáculo aterrador das injustiças humanas, esta moral me tranqüiliza e me educa. Aprendo a tolerar aquilo que me faz sofrer. Suporto então melhor meu sentimento de responsabilidade. Ele já não me esmaga e deixo de me levar, a mim ou aos outros, a sério demais. Vejo então o mundo com bom humor. Não posso me preocupar com o sentido ou a finalidade de minha existência, nem da dos outros, porque, do ponto de vista estritamente objetivo, é absurdo. E no entanto, como homem, alguns ideais dirigem minhas ações e orientam meus juízos. Porque jamais considerei o prazer e a felicidade como um fim em si e deixo este tipo de satisfação aos indivíduos reduzidos a instintos de grupo.
Em compensação, foram ideais que suscitaram meus esforços e me permitiram viver. Chamam-se o bem, a beleza, a verdade. Se não me identifico com outras sensibilidades semelhantes a minha e se não me obstino incansavelmente em perseguir este ideal eternamente inacessível na arte e na ciência, a vida perde todo o sentido para mim. Ora, a humanidade se apaixona por finalidades irrisórias que tem por nome a riqueza, a glória, o luxo. Desde moço já as desprezava.
Tenho forte amor pela justiça, pelo compromisso social. Mas com muita dificuldade me integro com os homens e em suas comunidades. Não lhes sinto a falta porque sou profundamente um solitário. Sinto-me ralmente ligado ao Estado, a pátria, a meus amigos, a minha família no sentido completo do termo. Mas meu coração experimenta, diante desses laços, curioso sentimento de estranheza, de afastamento e a idade vem acentuando ainda mais essa distância. Conheco com lucidez e sem prevenção as fronteiras da comunicação e da harmonia entre mim e os outros homens. Com isso perdi algo da ingenuidade ou da inocência, mas ganhei minha independência. Já não mais firmo uma opinião, um habito ou um julgamento sobre outra pessoa. Testei o homem. E é inconsistente.
A virtude republicana corresponde a meu ideal político. Cada vida encarna a dignidade da pessoa humana, e nenhum destino poderá justificar uma exaltação qualquer de quem quer que seja. Ora, o acaso brinca comigo. Porque os homens me testemunham uma incrível e excessiva admiração e veneração. Não quero e não mereço nada. Imagino qual seja a causa profunda, mas quimérica, de seu sentimento. Querem compreender as poucas idéias que descobri. Mas a elas consagrei minha vida, uma vida inteira de esforço ininterrupto.
Fazer, criar, inventar exigem unidade de concepção, de direção e de responsabilidade. Reconheco esta evidencia. Os cidadãos executantes, porem, não deverão nunca ser obrigados e poderão escolher sempre seu chefe.
Ora, bem depressa e inexoravelmente, um sistema autocrático de domínio se instala e o ideal republicano degenera. A violência fascina os seres moralmente mais fracos. Um tirano vence por seu gênio, mas seu sucessor será sempre um rematado canalha. Por esta razão, luto sem tréguas e apaixonadamente contra os sistemas dessa natureza, contra a Itália fascista de hoje e contra a Russia soviética de hoje. A atual democracia na Europa naufraga e culpamos por esse naufrágio o desaparecimento da ideologia republicana. Ai vejo duas causas terrivelmente graves. Os chefes de governo não encarnam a estabilidade e o modo da votação se revela impessoal. Ora, creio que os Estados Unidos da America encontraram a solução desse problema. Escolhem um presidente responsável eleito por quatro anos. Governa efetivamente e afirma de verdade seu compromisso. Em compensação, o sistema político europeu se preocupa mais com o cidadão, com o enfermo e o indigente. Nos mecanismos universais, o mecanismo Estado não se impõe como o mais indispensável. Mas e a pessoa humana, livre, criadora e sensível que modela o belo e exalta o sublime, ao passo que as massas continuam arrastadas por uma dança infernal de imbecilidade e de embrutecimento.
A pior das instituições gregárias se intitula exercito. Eu o odeio. Se um homem puder sentir qualquer prazer em desfilar aos sons de musica, eu desprezo este homem... Não merece um cerebro humano, já que a medula espinhal o satisfaz. Deveriamos fazer desaparecer o mais depressa possível este câncer da civilização. Detesto com todas as forcas o heroísmo obrigatório, a violência gratuita e o nacionalismo débil. A guerra e a coisa mais desprezível que existe. Preferia deixar-me assassinar a participar desta ignomínia.
No entanto, creio profundamente na humanidade. Sei que este câncer de há muito deveria ter sido extirpado. Mas o bom senso dos homens é sistematicamente corrompido. E os culpados são: escola, imprensa, mundo dos negócios, mundo político.
O mistério da vida me causa a mais forte emoção. E é o sentimento que suscita a beleza e a verdade, cria a arte e a ciência. Se alguém não conhece esta sensação ou não pode mais experimentar espanto ou surpresa, já e um morto-vivo é seus olhos se cegaram. Aureolada de temor, é a realidade secreta do mistério que constitui também a religião. Homens reconhecem então algo de impenetrável a suas inteligências, conhecem porem as manifestações desta ordem suprema e da Beleza inalterável. Homens se confessam limitados e seu espírito não pode apreender esta perfeição. E este conhecimento e esta confissão tomam o nome de religião. Deste modo, mas somente deste modo, sou profundamente religioso, bem como esses homens. Não posso imaginar um Deus a recompensar e a castigar o objeto de sua criação. Não posso fazer idéia de um ser que sobreviva a morte do corpo. Se semelhantes idéias germinam em um espírito, para mim e ele um fraco, medroso é estupidamente egoísta.
Não me canso de contemplar o mistério da eternidade da vida. Tenho uma intuição da extraordinária construção do ser. Mesmo que o esforço para compreendê-lo fique sempre, desproporcionado, vejo a Razão se manifestar na vida. Tenho uma intuição da extraordinária construção do ser. Mesmo que o esforço para compreendê-lo fique sempre desproporcionado, vejo a Razão se manifestar na vida.

Religião e Ciência

Todas as nações e todas as imaginações humanas tem em vista satisfazer as necessidades dos homens e trazer lenitivo a suas dores. Recusar esta evidência é não compreender a vida do espírito e seu progresso. Porque experimentar e desejar constituem os impulsos primários do ser, antes mesmo de considerar a majestosa criação desejada. Sendo assim, que sentimentos e condicionamentos levaram os homens a pensamentos religiosos e os incitaram a crer, no sentido mais forte da palavra? Descubro logo que as raízes da idéia e da experiência religiosa se revelam múltiplas. No primitivo, por exemplo, o temor suscita representações religiosas para atenuar a angústia da fome, o medo das feras, das doenças e da morte. Neste momento da historia da vida, a compreensão das relações causais mostra-se limitada e o espírito humano tem de inventar seres mais ou menos a sua imagem. Transfere para a vontade e o poder deles as experiências dolorosas e trágicas de seu destino. Acredita mesmo poder obter sentimentos propícios desses seres pela realização de ritos ou de sacrifícios. Porque a memória das gerações passadas lhe faz crer no poder propiciatório do rito para alcançar as boas graças de seres que ele próprio criou.
A religião é vivida antes de tudo como angústia. Não é inventada, mas essencialmente estruturada pela casta sacerdotal, que institui o papel de intermediário entre seres temíveis e o povo, fundando assim sua hegemonia. Com freqüência o chefe, o monarca ou uma classe privilegiada, de acordo com os elementos de seu poder e para salvaguardar a soberania temporal, se arrogam as funções sacerdotais. Ou então, entre a casta política dominante e a casta sacerdotal se estabelece uma comunidade de interesses.
Os sentimentos sociais constituem a segunda causa dos fantasmas religiosos. Porque o pai, a mãe ou o chefe de imensos grupos humanos, todos enfim, são falíveis e mortais. Então a paixão do poder, do amor e da forma impele a imaginar um conceito moral ou social de Deus. Deus-Providência, ele preside ao destino, socorre, recompensa e castiga. Segundo a imaginação humana, esse Deus-Providência ama e favorece a tribo, a humanidade, a vida, consola na adversidade e no malogro, protege a alma dos mortos. E é este o sentido da religião vivida de acordo com o conceito social ou moral de Deus. Nas Sagradas Escrituras do povo judeu manifesta-se claramente a passagem de uma religião-angústia para uma religião-moral. As religiões de todos os povos civilizados, particularmente dos povos orientais, se manifestam basicamente morais. O progresso de um grau ao outro constitui a vida dos povos. Por isto desconfiamos de preconceito que define as religiões dos povos civilizados como morais. Todas as simbioses existem mas a religião-moral predomina onde a vida social atinge um nível superior. Estes dois tipos de religião traduzem uma idéia de Deus pela imaginação do homem. Somente indivíduos particularmente ricos, comunidades particularmente sublimes se esforçam por ultrapassar esta experiência religiosa. Todos, no entanto, podem atingir a religião em um ultimo grau, raramente acessível em sua pureza total. Dou a isto o nome de religiosidade cósmica e não posso falar dela com facilidade já que se trata de uma noção muito nova, a qual não corresponde conceito algum de Deus antropomórfico.
O ser experimenta o nada das aspirações e vontades humanas, descobre a ordem e a perfeição onde o mundo da natureza corresponde ao mundo do pensamento. A existência individual é vivida então como uma espécie de prisão e o ser deseja provar a totalidade do Ente como um todo perfeitamente inteligível. Notam-se exemplos desta religião cósmica nos primeiros momentos da evolução em alguns salmos de Davi ou em alguns profetas. Em grau infinitamente mais elevado, o budismo organiza os dados do cosmos, que os maravilhosos textos de Schopenhauer nos ensinaram a decifrar. Ora, os gênios-religiosos de todos os tempos se distinguiram por esta religiosidade ante o cosmos. Ela não tem dogmas nem Deus concebido a imagem do homem, portanto nenhuma Igreja ensina a religião cósmica. Temos também a impressão de que os hereges de todos os tempos da historia humana se nutriam com esta forma superior de religião. Contudo, seus contemporâneos muitas vezes os tinham por suspeitos de ateísmo, e ás vezes, também, de santidade. Considerados deste ponto de vista, homens como Demócrito, Francisco de Assis, Spinoza, se assemelham profundamente.
Como poderá comunicar-se de homem a homem esta religiosidade, uma vez que não pode chegar a nenhum conceito determinado de Deus, a nenhuma teologia? Para mim, o papel mais importante da arte e da ciência consiste em despertar e manter desperto o sentimento dela naqueles que lhe estão abertos. Estamos começando a conceber a relação entre a ciência e a religião de um modo totalmente diferente da concepção clássica. A interpretação histórica considera adversários irreconciliáveis ciência e religião, por uma razão fácil de ser percebida. Aquele que está convencido de que a lei causal rege todo acontecimento não pode absolutamente encarar a idéia de um ser a intervir no processo cósmico, que lhe permita refletir seriamente sobre a hipótese da causalidade. Não pode encontrar um lugar para um Deus-angústia, nem mesmo para uma religião social ou moral: de modo algum pode conceber um Deus que recompensa e castiga, já que o homem age segundo leis rigorosas internas e externas, que lhe proíbem rejeitar a responsabilidade sobre a hipótese-Deus, do mesmo modo que um objeto inanimado é irresponsável por seus movimentos. Por este motivo, a ciência foi acusada de prejudicar a moral. Coisa absolutamente injustificável. E como o comportamento moral do homem se fundamenta eficazmente sobre a simpatia ou os compromissos sociais, de modo algum implica uma base religiosa. A condição dos homens seria lastimável se tivessem de ser domados pelo medo do castigo ou pela esperança de uma recompensa depois da morte.
Portanto, é compreensível que as Igrejas tenham, em todos os tempos, combatido a Ciência e perseguido seus adeptos. Mas eu afirmo com todo o vigor que a religião cósmica é o móvel mais poderosos e mais generoso da pesquisa cientifica. Somente aquele que pode avaliar os gigantescos esforços e, antes de tudo, a paixão sem os quais as criações intelectuais cientificas inovadoras não existiriam, pode pesar a força do sentimento, único a criar um trabalho totalmente desligado da vida prática. Que confiança profunda na inteligibilidade da arquitetura do mundo e que vontade de compreender, nem que seja uma parcela minúscula da inteligência a se desvendar no mundo, devia animar Kepler e Newton para que tenham podido explicar os mecanismos da mecânica celeste, por um trabalho solitário de muitos anos. Aquele que só conhece a pesquisa cientifica por seus efeitos práticos vê depressa demais e incompletamente a mentalidade de homens que, rodeados de contemporâneos céticos, indicaram caminhos aos indivíduos que pensavam como eles. Ora, eles estão dispersos no tempo e no espaço. Aquele que devotou sua vida a idênticas finalidades é o único a possuir uma imaginação compreensiva destes homens, daquilo que os anima, lhes insufla a força de conservar seu ideal, apesar de inúmeros malogros. A religiosidade cósmica prodigaliza tais forças. Um contemporâneo declarava, não sem razão, que em nossa época, instalada no materialismo, reconhece-se nos sábios escrupulosamente honestos os únicos espíritos profundamente religiosos.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

III EL PORVENIR DE UNA ILUSION - SIGMUND FREUD

II

Hemos pasado inadvertidamente de lo económico a lo psicológico. Al principio nos inclinamos a buscar el patrimonio cultural em los bienes existentes y en las instituciones para su distribución. La conclución de que toda cultura reposa en la imposición coercitiva del trabajo y em la renuncia a los instintos, provocando, por consiguiente, la oposicion de aquellos sobre los cuales recaen tales exigências, nos hace ver claramente que los bienes mismos, los médios para su conquista y las disposiciones para su distribución no puede ser el contenido único, ni siquiera el contenido esencial de la cultura, puesto que se hallan amenazados por la rebeldia y El ansia de destrucción de los participes de la misma. Al lado de los bienes se sitúan ahora los médios necesarios para defender la cultura; esto es, los médios de coerción y los conducentes a reonciliar a los hombres con la cultura y a compensarles sus sacrifícios. Estos últimos médios constituyen lo que pudiéramos considerar como el patrimônio espiritual de la cultura.
Com objeto de mantener cierta regularidad em nuestra nomenclatura, denominaremos interdiccion al hecho de que un instinto no pueda ser satisfecho, prohibición a la institución que marca tal interdicción y privación al estado que la prohibicón trae consigo. Lo más inmediato será establecer una distinción entre aquellas privaciones que afectan a todos los hombres y aquellas otras que sólo recaen sobre grupos, clases o indivíduos determinados. Las primeras son las más antiguas; con las prohibiciones em las que tienen su origen inició la cultura hace muchos milênios el desligamiento del estado animal primitivo. Para nuestra sorpresa, hemos hallado que se mantienen aún em vigor, constituyendo todavia el nódulo de la hostilidad contra la cultura. Los deseos instintivos sobre los que gravitan nacen de nuevo con cada criatura humana. Existe una clase de hombres, los neuróticos, en los que ja estas interdicciones provócan uma reaccion asocial. Tales deseos instintivos son el incesto, el canibalismo y el homicídio. Extranará, quizá, ver reunidos estos deseos instintivos, em cuya condenación aparecen de acuerdo todos los hombres, con aquellos otros sobre cuya permisión o interducción se lucha tan ardientemente en nuestra cultura, pero psiclológicamente está justificado. La actitud cultural ante estos más antiguos deseos instintivos no es tampoco uniforme; tan solo el canibalismo es unánimemente condenado y, salvo para la observación psicoanalitica, parece haber sido dominado por completo. La intensidad de los deseos incestuosos se hace aún sentir detrás de la prohibición, y el homicídio es todavia practicado e incluso ordenado en nuestra cultura bajo determinadas condiciones. Probablemente habrán de sobrevenir nuevas evoluciones de la cultura, en las cuales determinadas satisfacciones de deseos, perfectamente posibles hoy, parecerán tan inadmisibles como hoy la del canibalismo.
Ya en estas más antiguas renuncias al instinto interviene un factor psicológico que integra también suma importancia em todas las ulteriores. Es inexacto que el alma humana no haya realizado progreso alguno desde los tiempos mas primitivos y que, em contraposición a los progresos de la ciência y la técnica, sea hoy la misma que al principio de la Historia. Podemos indicar aquí uno de tales progresos anímicos. Una de las características de nuestra evolución consiste em la transformación paulatina de la coerción externa em coerción interna por la acción de uma especial instancia psíquica del hombre, el super-yo,que ya acogiendo la coerción externa entre sus mandamientos.
En todo nino podemos observar el proceso de esta transformación, que es la que hace de él um ser moral y social. Este robustecimiento del super-yo es uno de los factores culturales psicológicos mas valiosos. Aquellos indivíduos en los cuales ha tenido efecto cesan de ser adversários de la civilización y se convierten em sus mas firmes substratos. Cuanto mayor se a su numero em um sector de cultura, más segura se hallará ésta y antes podrá prescindir de los médios externos de coerción. La medida de esta asimilación de la coerción externa varia mucho según el instinto sobre el cual recaiga la prohibición.
Em cuanto a las exigencias culturales mas antiguas, antes detalladas, parece haber alcanzado – si excluimo a los neuróticos, excepción indeseada – uma gran amplitud. Pero su proporción varia mucho con respecto a los demás instintos. Al volver a ellos nuestra vista, advertimos com sorpresa y alarma que una multitud de indivíduos no obedece a las prohibiciones culturales correspondientes más que bajo la presión de la coerción externa; esto es, sólo mientras tal coerción constituye uma amenaza real e ineludible. Asi sucede muy especialmente en lo que se refere a las llamadas exigencias morales de la civilización, prescritas también por igual a todo individuo. La mayor parte de las transgresiones de que los hombres se hacen culpables lesionan estos precptos. Infinitos hombres civilizados, que retrocederian temerosos ante el homicídio o el incesto, no se privan de satisfacer su codicia, sus impulsos agresivos y sus caprichos sexuales, ni de perjudicar a sus semjantes com la mentira, el fraude y la calumnia, cuando pueden hacerlo sin castigo, y así viene sucediendo, desde sempre, en todas las civilizaciones.
En lo que se refiere a lãs restricciones que solo afectan a determinadas clases sociales, la situación se nos muestra claramente y no ha sido nunca un secreto para nadie. Es de suponer que estas clases postergadas envidiarán a las favorecidas sus privilegios y harán todo lo posible por libertarse Del incremento especial de privación que sobre ellas pesa. Donde no lo consigan, surgirá en la civilización correspondiente un descontento duradero que podrá conducir a peligrosas rebeliones. Pero cuando una civilización no la logrado evitar que la satisfación de un cierto numero de sus participes tenga como premisa la opresión de otros, de la mayoria quizá – y así sucede en todas las civilizaciones actuales -, es comprensible que los oprimidos desarrollen una intensa hostilidad contra la civilización que ellos mismos sostienen con su trabajo, pero de cuyos bienes no participan sino muy poco. En este caso no puede esperarse por parte de los oprimidos una asimilación de las prohibiciones culturales,pues, por el contrario, se negarán a reconocerlas, tenderián a destruir la civilización misma y eventualmente a suprimir sus premisas. La hostilidad de estas clases sociales contra la civilización es tan patente, que há monopolizado la atención de los observadores, impidiéndoles ver la que latentemente abrigan también las otras capas sociales más favorecidas. No hace falta decir que una cultura que deja insatisfecho a un núcleo tan considerable de sus participes y los incita a la rebelión no puede durar mucho tiempo, ni tampoco lo merece.
El grado de asimilación de los preceptos culturales – o dicho de um modo popular y nada psicológico: el nível moral de los participes de una civilización – no es el único patrimonio espiritual que ha de tenerse en cuenta para valorar la civilización de que se trate. Ha de atenderse también a su acervo de ideales y a su producción artística; esto es, a las satisfacciones extraídas de estas dos fuentes.
Nos inclinaremos demasiado facilmente a incluir entre los bienes espirituales de una civilización sus ideales; esto es, valoraciones que determinan en ella cuáles son los rendimientos más elevados a los que deberá aspirarse.
Al principio parece que estos ideales son los que han determinado y determinán los rendimientos de la civilización correspondiente, pero no tardamos em advertir que, en realidad, sucede todo lo contrario: los ideales quedan forjados como uma secuela de los primeros rendimientos obtenidos por la acción conjunta de las dotes intrínsecas de una civilización y las circunstancias externas, y estos primeros rendimientos son retenidos ya por el ideal para ser continuados. Así, pues, la satisfación que el ideal procura a los participes de uma civlización es de naturaleza narcisista y reposa en el orgullo del rendimiento obtenido. Para ser completa precisa de la comparación con otras civilizaciones que han tendido hacia resultados distintos y han desarrollado ideales diferentes. De este modo, los ideales culturales se convierten en motivo de discórdia y hostilidad entre los distintos sectores civilizados, como se hace patente entre las naciones.
La satisfacción narcisista, extraída Del ideal cultural, es uno de los poderes que com mayor éxito actúan en contra de la hostilidad adversa a la civilización, dentro de cada sector civilizado. No sólo las clases favorecidas que gozan de los benefícios de la civilización correspondiente , sino también las oprimidas, participan de tal satisfacción, en cuanto el derecho a despreciar a los que no pertencen a su civilización, les compensa de las imitaciones que la misma se impone a ellos. Cayo es um misero plebeyo agobiado por los tributos y lãs prestaciones personales, pero es también um romano, y participa como tal en la magna empresa de dominar a otras naciones e imponerles leyes. Esta identificación de los oprimidos con la clase que los oprime y los explota no es, sin embargo,más que un fragmento de uma más amplia tatalidad, pues, además, los oprimidos pueden sentirse efectivamente ligados a los opresores y, a pesar de su hostilidad, ver en sus amos su ideal. Si no existieran estas relaciones, satisfactorias en el fondo, seria incomprensible que ciertas civilizaciones se hayan conservado tanto tiempo, a pesar de la justificada hostilidad de grandes masas de hombres.
La satisfacción que el parte procura a los participes de una civilización es muy distinta, aunque, por lo general, permanece inasequible a las masas, absorvidas por el trabajo agotador y poco preparadas por la educación. Como ya sabemos, el arte ofrece satisfacciones sustitutivas compensadoras de las primeras y más antiguas renuncias impuestas por la civilización al individuo – las mas hondamente sentidas aún -, y de este modo es lo único que consigue reconciliarle com sus sacrifícios. Pero, además, las creaciones del arte intensifican los sentimientos de identificación, de los que tanto precisa todo secrtor civilizado, ofreciendo ocasiones de experimentar colectivamente sensaciones elevadas. Por ultimo, contribuyen también a la satisfacción narcisista cuando representan el rendimiento de uma civilización especial y expresan em forma impresionante sus ideales.
No hemos citado aún el elemento mas importante del inventario psíquico de una civilización. Nos referimos a sus representaciones religiosas – em el más amplio sentido – o, con otras palabras que más tarde justificaremos, a sus ilusiones.

domingo, 10 de janeiro de 2010

EL PORVENIR DE UNA ILUSION - SIGMUND FREUD

1927
El porvenir de uma ilusión fue publicada e, 1927 por el Internationaler Psychoanalitischer Verlag (Leipzig, Viena y Zurich). Posteriormente ha sido incluída por la misma Casa editorial em la edicion de lás Obras completas de Freud (tomo II).

I
Todo aquel que ha vivido largo tiempo dentro de una determinada cultura y se ha planteado repetidamente el problema de cuáles fueron los orígenes y la trayectoria evolutiva de la misma, acaba por ceder también alguna vez a la tentación de orientar su mirada em sentido opuesto y preguntarse cuáles serán los destinos futuros de tal cultura y por qué avatares habrá
aún de pasar. No tardamos, sin embargo, em advertir que ya el valor inicial de tal investigación queda considerablemente disminuido por la acción de varios factores. Ante todo, son muy pocas las personas capaces de uma vision total de la actividad humana em sus múltiples modalidades. La inmensa mayoria de los hombres se ha visto obligada a limitarse a escasos sectores o incluso a uno solo. Y cuanto menos sabemos del pasado y del presente, tanto más inseguro habrá de ser nuestro juicio sobre el porvenir. Pero, además, precisamente em la formación de este juicio intervienen, en un grado muy difícil de precisar, las esperanzas subjetivas individuales, las cuales dependen, a su vez, de factores puramente personales, esto es, de la experiência de cada uno y de su actitud más o menos optimista ante la vida, determinada por el temperamento, el éxito o el fracaso. Por último, ha de tenerse también en cuenta el hecho singular de que los hombres viven, em general, el presente con una cierta ingenuidad; esto es, sin poder llegar a valorar exactamente sus contenidos. Para ello tienen que considerarlo a distancia, lo cual supone que el presente ha de haberse convertido em pretérito para que podamos hallar em él puntos de apoyo em que basar un juicio sobre el porvenir.
Así, pues, al ceder a la tentación de pronunciarnos sobre el porvenir probable de nuestra cultura, obraremos prudentemente teniendo en cuenta los reparos antes indicados al mismo tiempo que la inseguridad inherente a toda predicción. Por lo que a mi respecta, tales consideraciones me llevarán a aparterme rápidamente de la magna labor total y a refugiarme en el pequeno sector parcial al que hasta ahora he consagrado mi atención, limitándome a fijar previamente su situación dentro de la totalidad.
La cultura humana – entendidendo por tal modo aquello en que la vida humana ha superado sus condiciones zoológicas y se distingue de la vida de los animales, y desdenando establecer entre los conceptos de cultura y civilización separación alguna -; la cultura humana, repetimos, muestra, como es sabido, al observador dos distintos aspectos. Por un lado, comprende todo el saber y el poder conquistados por los hombres para llegar a dominar las fuerzas de la Naturaleza y extraer los bienes naturales con que satisfacer ls necesidades humanas, y por outro, todas las relaciones de los hombres entre sí y muy especialmente la distribución de los bienes naturales alcanzables. Estas dos direcciones de la cultura no son independientes uma de outra, em primer lugar, porque la medida en que los bienes existentes consienten la satisfacción de los instintos ejerce profunda influencia sobre las relaciones de los hombres entre sí; en segundo, porque tambien él hombre mismo, individualmente considerado, puede representar un bien natural para outro en cuanto este utiliza su capacidad de trabajo o hace de él su objeto sexual. Pero, además, porque cada individuo es virtualmente um enemigo de la civilización, a pesar de tener que reconocer su general interes humano. Se da, en efecto, el hecho singular de que los hombres, no obstante serles imposible existir en el aislamiento, sienten como um peso intolerable los sacrifícios que la civilización les impone para hacer posible la vida em común. Así, pues, la cultura ha de ser defendida contra el individuo, y a esta defensa responden todos sus mandamientos, organizaciones e instituciones, los cuales no tienen tan sólo por objeto efectuar uma determinada distribución de los bienes naturales, sino también mantenerla e incluso defender contra los impulsos hostiles de los hombres los medios existentes para el domínio de la Naturaleza y la producción de bienes. Las creaciones de los hombres son fáciles de destruir, y la ciência y la técnica por ellos edificada pueden tambien ser utilizadas par su destrucción.
Experimentamos así la impresión de que la civilización es algo que fue impuesto a uma mayoria contraria a ella por una minoria que supo apoderarse de los médios de poder y de coerción. Luego no es aventurado suponer que estas dificultades no son inherentes a la esencia misma de la cultura, sino que dependen de las imperfecciones de las formas de cultura desarrolladas hasta ahora. Es fácil, en efecto, senalar tales imperfecciones. Mientras que em el domínio de la Naturaleza ha realizado la Humanidad contínuos progresos y puede esperarlos aún mayores, no puede hablarse de un progreso análogo em la regulación de las relaciones humanas., y probablemente en todas las épocas, como de nuevo ahora, se han preguntado muchos hombres si esta parte de las conquistas culturales merece, em general, ser defendida. Puede creerse en la posibilidad de una nueva regulación de las relaciones humanas, que cegará las fuentes del descontento ante la cultura, renunciando a la coerción y a la yugulación de los instintos, de manera que los hombres puedan consagrarde, sin ser pertubados por la discórdia interior, a la adquisición y la disfrute de los bienes terrenos. Esto seria la edad de oro,pero es muy dudoso que pueda llegarse a ello. Parece, más bien, que toda la civilización há de basarse sobre la coerción y la renuncia a los instintos, y ni siquiera puede asegurarse que al desaparecer la coerción se mostrarse dispuesta la mayoria de los indivíduos humanos a tomar sobre sí la labor necesaria para la adquisición de nuevos bienes. A mi juicio, ha de contarse con el hecho de que todos los hombres integran tendências destructoras – antisociales y anticulturales – y que em gran numero de personas tales tendências son bastante poderosas para determinar su conducta en la sociedad humana.
Este hecho psicológico presenta um sentido decisivo para el enjuiciamineto de la cultura humana. En um principio pudimos creer que su función esencial era el domínio de la Naturaleza para la conquista de los bienes vitales y que los peligros que la amenazan podian ser evitados por médio de una adecuada distribución de dichos bienes entre los hombres. Mas ahora vemos desplazado el nódulo de la cuestion desde lo material a lo anímico. Lo decisivo está em si es posible aminorar, y em qué medida, los sacrifícios impuestos a los hombres em cuanto a la renuncia a la satisfacción de sus instintos, conciliarlos com aquellos que continúen siendo necesarios y compensarles de ellos. El domínio de la masa por una minoria seguirá demonstrandose siempre tan imprescindible como la imposición coercitiva de la labor cultural, pues las masas son perezosas e ignorantes, no admiten gustosas la renuncia al instinto, siendo útiles cuantos argumentos se aduzcan para convencerlas de lo inevitable de tal renuncia, y sus indivíduos se apoyan unos a otros en la tolerancia de su desenfreno. Unicamente la influencia de indivíduos ejemplares a los que reconocen como conductores puede moverlas a aceptar aquellos esfuerzos y privaciones imprescindibles para la perduración de la cultura. Tudo irá entences bien mientras que tales conductores sean personas que posean un profundo conocimiento de las necesidades de la vida y que se hayan elevado hasta el domínio de sus propios deseos instintivos. Pero existe el peligro de que para conservar su influjo hagan a las masas mayores concesiones que éstas a ellos, y por tanto, parece necesario que la posesión de médios de poder los haga independientes de la colectividad. Em resumen: el hecho de que sólo mediante cierta coerción puedan ser mantenidas las instituciones culturales es imputable a dos circunstancias ampliamente difundidas entre los hombres: la falta de amor al trabajo y la ineficácia de los argumentos contra las pasiones.
Sé de antemano la objeción que se opondrá a estas afirmaciones. Se dirá que la condición que acabamos de atribuir a las colectividades humanas, y em la que vemos una prueba de la necesidad de una coerción que impogna la labor cultural, no es por si misma sino uma consecuencia de la existencia de instituciones culturales defectuosas que han exasperado a los hombres haciéndolos vengativos e inasequibles. Nuevas generaciones, educadas con amor y em la más alta estimación del pensamiento, que hayan experimentado desde muy temprano los benefícios de la cultura, adoptarán también una distinta actitud ante ella, la considerarán como su más preciado patrimonio y estarán dispuestas a realizar todos aquellos sacrifícios necesarios para su perduración, tanto em trabajo como em renuncia a la satisfacción de los instintos. Harán innecesaria la coerción y se diferenciarán muy poco de sus conductores. Si hasta ahora no ha habido em ninguna cultura colectividades humanas de esta condición, ello se debe a que ninguna cultura ha acertado aún con instituciones capaces de influir sobre los hombres en tal sentido y precisamente desde su infância.
Podemos preguntarnos si nuestro domínio sobre la Naturaleza permite ya, o permitirá algún dia, el establecimiento de semejantes instituciones culturales, e igualmente de donde habrán de surgir aquellos hombres superiores, prudentes y desinteresasos que hayan de actuar como conductores de las masas y educadores de las generaciones futuras. Puede intimidarnos la magna coerción inevitable para la consecución de estos propósitos. Pero no podemos negar la grandeza del proyecto ni su importancia para el porvenir de la cultura humana. Se nos muestra basado en el hecho psicológico de que el hombre integra las más diversas disposiciones instintivas, cuya orientación definitiva es determinada por las tempranas experiências infantiles. De este modo, los limites de la educabilidad del hombre supondrán también los de la eficacia de tal transformación cultural. Podemos preguntarnos si um distinto ambiente cultural puede llegar a extinguir, y em qué medida, los dos caracteres de las colectividades humanas antes senaladas, que tanto dificultan su conducción. Tal experimento está aún por hacer. Probablemente cierto tanto por ciento de la Humanidad permanecera siempre asocial, a consecuencia de una disposición patológica o de una exagerada energia de los instintos. Pero si se consigue reducir a una minoria la actual mayoria hostil a la cultura, se habrá alcanzado mucho, quizá todo lo posible.
No quisiera despertar la impresión de haberme desviado mucho del camino prescrito a mi investigación y, por tanto, he de afirmar explicitamente que no me he propuesto en absoluto enjuiciar el gran experimento de cultura emprendido actualmente en el amplio território situado entre Europa y Asia. Carezco de conocimiento suficiente de la cuestión y de capacidad para pronunciarme sobre sus posibilidades, contrastar la adecuación de los métodos aplicados a estimar la magnitud del abismo inevitable entre el propósito y la realización. Lo que alli se prepara, inacabado aún, elude, como tal, una precisa observación, a la cual ofrece, en cambio, rica matéria nuestra cultura, consolidada hace ya largo tiempo.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Jantar de Aniversário da CONSEG


A ACIAA durante a cerimônia recebeu o troféu Rubens Recalcatti por duas vezes, a primeira enquanto entidade e o segundo pela Presidente Rosa Tanaka Zelaga, pelo incentivo ao Conselho e trabalhos voltados para segurança pública em nosso município. Numa homenagem emocionante, contando a história das Rosas, o CONSEG homenageou a presidente, que emocionada recebeu seu troféu das mãos do grande homenageado da noite Dr. Rubens Recalcatti. Dentre os homenageados estiveram: Guarda Municipal, Policia Militar, Prefeitura Municipal de Araucária, Petrobrás, Adair Milani - Diretor GM, Sr. Francisco Carlos Ribeiro - Petrobrás e Araucária TC. Na ocasião foi dado ao Delegado Rubens Recalcatti o título de Patrono do CONSEG Araucária. Muitas empresas patrocinaram o evento, as quais o CONSEG agradece.