POLÍCIA CIVIL DO ESTADO DO PARANÁ

POLÍCIA CIVIL DO ESTADO DO PARANÁ

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Introdução teórica as funções da psicanálise em criminologia - JACQUES LACAN

Comunicação para a XIII Conferência dos Psicanalistas de Língua Francesa (29 de maio de 1950), em colaboração com Michel Cénac

I. Do movimento da verdade nas ciências do homem
Se a teoria nas ciências fisicas nunca escapou realmente a exigência de coerência interna que constitui o próprio movimento do conhecimento, as ciências do homem, por se encarnarem em comportamentos na própria realidade de seu objeto, não podem eludir a questão de seu sentido, nem fazer com que a resposta se imponha em termos de verdade.
Que a realidade do homem implique esse processo de revelação, eis ai um fato que fundamenta para alguns pensar a história como uma dialética inscrita na matéria; e inclusive uma verdade que nenhum ritual de proteção “behavorista” do sujeito frente a seu objeto há de castrar com sua agudeza criadora e mortal, e que faz do próprio estudioso, devoto do “puro” conhecimento, um responsável em primeiro grau.
Ninguém sabe disso melhor que o psicanalista, que, no entendimento do que lhe confia seu sujeito assim como no manejo dos comportamentos condicionados pela técnica, age por uma revelação cuja verdade condiciona a eficácia.
Por outro lado, não seria a busca da verdade o que constitui o objeto da criminologia na ordem das coisas judiciárias, e também o que unifica suas duas faces: a verdade do crime em sua face policial, a verdade do criminoso em sua face antropológica?
Em que contribuem para essa busca a técnica que norteia nosso diálogo com o sujeito e as noções que nossa experiência definiu em psicologia, eis o problema que constituirá hoje nosso propósito: menos para falar de nossa contribuição ao estudo da delinqüência – exposta nos outros relatórios – do que para estabelecer seus limites legítimos, e por certo não para propagar a letra de nossa doutrina sem uma preocupação de método, mas para repensá-la, como nos é recomendado fazer incessantemente, em função de um novo objeto.

II. Da realidade sociológica do crime e da lei, e da relação da psicanálise com seu fundamento dialético

Nem o crime nem o criminoso são objetos que se possam conceber fora de sua referencia sociológica.
A máxima “é a lei que faz o pecado” continua a ser verdadeira fora da perspectiva escatológica da Graça em que São Paulo a formulou.
Ela é cientificamente confirmada pela constatação de que não há sociedade que não comporte uma lei positiva, seja esta tradicional ou escrita, de costume ou de direito. Tampouco existe aquela em que não apareçam no grupo todos os graus de transgressão que definem o crime.
A pretensa obediência “inconsciente”, “forçada” ou “intuitiva” do primitivo a regra do grupo é uma concepção etnológica, fruto de uma insistência imaginária que lançou seu reflexo sobre muitas outras concepções das “origens”, porém tão mítica quanto elas.
Toda sociedade, por fim, manifesta a relação do crime com a lei através de castigos cuja realização, sejam quais forem suas modalidades, exige um assentimento subjetivo. Quer o criminoso, com efeito, se constitua ele mesmo no executor da punição que a lei dispõe como preço do crime – como no caso do incesto cometido nas ilhas Trobriand entre primos matrilineares, e cujo desfecho Malinowski nos relata em seu livro, capital nessa matéria, sobre O crime e o costume nas sociedades selvagens (e não importam as motivações psicológicas em que se decompõe a razão do ato, nem tampouco as oscilações de vendeta que as maldições do suicida podem gerar no grupo) -, quer a sanção prevista por um código penal comporte um processo que exija aparelhos sociais muito diferenciados, esse assentimento subjetivo é necessário a própria significação da punição.
As crenças mediante as quais essa punição se motiva no indivíduo, assim como as instituições pelas quais ela passa ao ato no grupo, permitem-nos definir numa dada sociedade aquilo que designamos, na nossa, pelo termo responsabilidade.
Mas, é preciso que a entidade responsável seja sempre equivalente. Digamos que se, primitivamente, é a sociedade em seu conjunto (sempre fechado, em princípio, como realçaram os etnólogos) que é considerada afetada, pelo fato de que um de seus membros deva ser restabelecido de um desequilíbrio, esse membro é tão pouco responsável como indivíduo que, muitas vezes, a lei exige satisfações a custa ou bem de um dos defensores ou bem da coletividade de um “in-group” que o encobre.
Ocorre até que a sociedade se considere tão alterada em sua estrutura que recorre a processos de exclusão do mal sob a forma de um bode expiatório, ou então de regeneração através de um recurso externo. Responsabilidade coletiva ou mística da qual nossos costumes trazem os vestígios, quando não tenta vir novamente a luz por meios invertidos.
Mas, também nos casos em que a punição limita-se a atingir o indivíduo fautor do crime, não é na mesma função nem, se quisermos, na mesma imagem dele mesmo que ele é tido como responsável, o que fica evidente ao refletirmos sobre a diferença da pessoa que tem que responder por seus atos conforme seu juiz represente o Santo Ofício ou presida o Tribunal do Povo.
E é aí que a psicanálise, pelas instancias que distingue no indivíduo moderno, pode esclarecer as vacilações da noção de responsabilidade em nossa época e o advento correlato de uma objetivação do crime para a qual ela pode colaborar.
Pois, com efeito, se em razão de limitar ao indivíduo a experiência que ela constitui, ela não pode ter a pretensão de apreender a totalidade de qualquer objeto sociológico, nem tampouco o conjunto das motivações atualmente em ação em nossa sociedade, persiste o fato de que ela descobriu tensões relacionais que parecem desempenhar em todas as sociedades uma função basal, como se o mal-estar da civilização desnudasse a própria articulação da cultura com a natureza. Podemos estender suas equações, com a ressalva de efetuar sua transformação correta, as ciências do homem que podem utilizá-las e, especialmente, como veremos, a criminologia.
Acresce que, se o recurso a confissão do sujeito, que é uma das chaves da verdade criminológica, e a reintegração na comunidade social, que é uma das finalidades de sua aplicação, parecem encontrar uma forma privilegiada no diálogo analítico, isso se dá, antes de mais nada, porque, podendo ser levado as significações mais radicais, esse diálogo aproxima-se do universal que esta incluído na linguagem e que, longe de podermos eliminá-lo da antropologia, constitui seu fundamento e seu fim, pois a psicanálise é apenas uma extensão técnica que explora no indivíduo o alcance da dialética que escande as produções de nossa sociedade e onde a máxima pauliniana recupera sua verdade absoluta.
A quem nos perguntar aonde nos leva tal colocação, responderemos, com o risco gratamente assumido de descartar a jactância clínica e o farisaísmo preventivo, remetendo-o a um dos diálogos que nos relatam os atos do herói da dialética e, em especial, ao Górgias, cujo subtítulo, invocando a retórica e bem feito para distrair a incultura contemporânea, contém um verdadeiro tratado do movimento do Justo e do Injusto.
Ali, Sócrates refuta a enfatuação do Mestre/Senhor, encarnado num homem livre dessa pólis antiga cujo limite é dado pela realidade do Escravo. Forma que abre caminho para o homem livre da Sabedoria, ao reconhecer o absoluto da Justiça nela estabelecido em virtude da simples linguagem, sob a maiêutica do Interlocutor. Assim, Sócrates, não sem fazê-lo aperceber-se da dialética, tão sem fundo quanto o tonel das Danaides, das paixões do poder, nem poupá-lo de reconhecer a lei de seu próprio ser político na injustiça da polis, acaba por incliná-lo ante os mitos eternos em que se exprime o sentido do castigo, da emenda para o individuo e do exemplo para o grupo, muito embora ele próprio, em nome do mesmo universal, aceite o destino que lhe cabe e se submeta da antemão ao veredito insensato da polis que o fez homem.
Nada há de inútil, com efeito, em lembrar o momento histórico em que nasceu uma tradição que condicionou o aparecimento de todas as nossas ciências e na qual se afirmou o pensamento do iniciador da psicanálise, quando ele proferiu com uma confiança patética: “ A voz do intelecto é baixa, mas não pára enquanto não se faz ouvida” – onde cremos ouvir, num eco abafado, a própria voz de Sócrates dirigindo-se a Cálicles: “A filosofia diz sempre a mesma coisa.”

III. Do crime que exprime o simbolismo do supereu como instancia psicopatológica: se a psicanálise irrealiza o crime, ela não desumaniza o criminoso

Se nem sequer podemos captar a realidade concreta do crime sem referi-lo a um simbolismo cujas formas positivas coordenam-se na sociedade, mas que se inscreve nas estruturas radicais que a linguagem transmite inconscientemente, esse simbolismo foi também o primeiro sobre o qual a experiência psicanalítica demonstrou, através de efeitos patogênicos, a que limites ate então desconhecidos ele repercute no individuo, tanto em sua fisiologia quanto em sua conduta.
Assim, foi partindo de uma das significações de relação que a psicologia das “sínteses mentais” recalcava ao Maximo em sua reconstrução das funções individuais que Freud inaugurou a psicologia que se reconhecer bizarramente como sendo a das profundezas, sem duvida em razão do alcance totalmente superficial daquilo cujo lugar ela tomou.
Esses efeitos, dos quais ela descobriu o sentido, ela os designou audaciosamente pelo sentimento que lhes é correspondente na vivência: a culpa.
Nada poderia manifestar melhor a importância da revolução freudiana do que o uso técnico ou vulgar, implícito ou rigoroso, confesso ou sub-reptício, que é feito em psicologia dessa verdadeira categoria onipresente desde então, de tão desconhecida que era – nada, a não ser os estranhos esforços de alguns para reduzi-la a formas “genéticas” ou “objetivas”, trazendo a garantia de um experimentalismo “behavorista” que há muito se haveria calado, caso se abstivesse de ler nos fatos humanos as significações que os especificam como tais.
E mais, a primeira situação, cuja noção ainda somos devedores a iniciativa freudiana por tê-la introduzido em psicologia para que ele ali obtivesse, no correr do tempo, o mais prodigioso sucesso – primeira situação, dizemos, não como confronto abstrato esboçando uma relação, mas como crise dramática que se resolve como estrutura -, é justamente a do crime em suas duas formas mais abominadas, o Incesto e o Parricídio, cuja sombra engendra toda a patogênese do Édipo.
E é inconcebível que, havendo recebido na psicologia tamanha contribuição do social, o médico Freud tenha ficado tentado a lhe fazer algumas retribuições e que, com Totem e tabu, em 1912, tenha querido demonstrar n crime primordial a origem da Lei universal. Não importa a que critica de método esteja sujeito esse trabalho, o importante foi que ele reconheceu que com a Lei e o Crime começava o homem, depois de o clinico haver mostrado que suas significações sustentavam inclusive a forma do individuo, não apenas em seu valor para o outro, mas também em sua ereção para si mesmo.
Assim veio a luz a concepção do supereu, inicialmente fundamentada em efeitos de censura inconsciente que explicavam estruturas psicopatológicas já identificadas, logo depois esclarecendo as anomalias da vida cotidiana e, por último, correlata a descoberta de uma morbidez imensa, ao mesmo tempo que de seus moveis psicogenéticos: a neurose de caráter, os mecanismos do fracasso, as impotências sexuais, “der gehemmte Mensch”.
Revelou-se assim uma imagem moderna do homem que contrastava estranhamente com as profecias dos pensadores do fim do século, imagem tão derrisória para as ilusões alimentadas pelos libertários quanto para as inquietações inspiradas nos moralistas pela emancipação das crenças religiosas e pelo enfraquecimento do laços tradicionais. A concupiscência que reluzia nos olhos do velho Karamazov quando ele interrogava seu filho – “Deus está morto, agora tudo é permitido” -, esse homem, o mesmo que sonha com o suicídio niilista do herói de Dostoievski ou se obriga a encher a lingüiça nietzschiana, responde com todos os seus males e com todos os seus gestos: “Deus está morto, nada mais é permitido.”
Esses males e esses gestos, a significação da autopunição os abrange a todos. Caberá então estende-la a todos os criminosos, na medida em que, segundo a formula pela qual se exprime o humor glacial do legislador, como ninguém pode alegar desconhecer a lei, qualquer um pode prever sua incidência e deve, portanto, ser tido com procurando seu castigo?
Esse comentário irônico deve, ao nos obrigar a definir o que a psicanálise reconhece como crimes ou delitos provenientes do supereu, permitir-nos formular uma critica do alcance dessa noção em antropologia.
Reportemo-nos as notáveis observações princeps pelas quais Alexander e Staub introduziram a psicanálise na criminologia. Seu teor é convincente, quer se trate de “tentativa de homicídio de um neurótico”, quer dos furtos singulares do estudante de medicina que não sossegou enquanto não se fez aprisionar pela policia berlinense, e que, em vez de adquirir o diploma a que seus conhecimentos e seus dons reais lhe davam direito, preferia exercê-los infringindo a lei, quer ser trate ainda do “possesso das viagens de automóvel”. Releiamos também a análise que fez a sra. Marie Bonaparte do caso da sra. Lefebvre: a estrutura mórbida do crime ou dos delitos é evidente: o caráter forçado destes na execução, sua estereotipia quando eles se repetem, o estilo provocador da defesa ou da confissão, a incompreensibilidade dos motivos, tudo confirma a “coação por uma força a que o sujeito não pode resistir”, e os juízes de todos esses casos concluíram nesse sentido.
Essas condutas, no entanto, tornam-se perfeitamente claras a luz da interpretação edipiana. Mas o que as distingue como mórbidas é seu caráter simbólico. Sua estrutura psicopatológica não está, de modo algum, na situação criminal que elas exprimem, mas no modo irreal dessa expressão.
Para nos fazermos compreender ate o fim, contrastemos com elas um fato que, apesar de constante nos anais dos exércitos, adquire toda a sua importância do modo, ao mesmo tempo muito extenso e seletivo dos elementos associais, pelo qual se efetua há mais de um século, em nossas populações, o recrutamento dos defensores da pátria ou da ordem social, qual seja, o gosto que se manifesta na coletividade assim formada, no dia de gloria que a põe em contato com seus adversários civis, pela situação que consiste em violar uma ou varias mulheres na presença de um macho, de preferência idoso e previamente reduzido a impotência, sem que nada leve a presumir que os indivíduos que a realizam se distingam, antes ou depois, como filhos ou maridos, com pais ou cidadãos, da moralidade normal. Fato simples, que bem podemos qualificar de fait divers , pela diversidade do credito que lhe é atribuído conforme sua fonte, e até, propriamente falando, de divertido, pelo material que essa diversidade oferece as propagandas.
Dizemos que há nisso um crime real, embora ele seja praticado precisamente numa forma edipiana, e o fautor seria justificadamente castigado se as condições heróicas em que se considera que tenha sido realizado não fizessem, na maioria das vezes, com que a responsabilidade fosse assumida pelo grupo que encobre o individuo.
Reencontramos, pois, as formulas límpidas que a morte de Mauss traz de novo a luz de nossa atenção: as estruturas da sociedade são simbólicas: o individuo, na medida em que é normal, serve-se delas em condutas reais; na medida em que é psicopata, exprime-se por condutas simbólicas.
Mas e evidente que o simbolismo assim expresso só pode ser parcelar, ou, quando muito, pode-se afirmar que ele marca o ponto de ruptura ocupado pelo individuo na rede das agregações sociais. A manifestação psicopática pode revelar a estrutura da falha, mas essa estrutura só pode ser tomada por um elemento na exploração do conjunto.
Eis por que as tentativas sempre renovadas e sempre falaciosas de fundamentar na teoria analítica noções como as de personalidade modal, caráter nacional ou supereu coletivo devem por nos ser dela distinguidas com o máximo rigor. Compreende-se, é claro, a atração que uma teoria que deixa transparecer de maneira tão sensível a realidade humana exerce sobre os pioneiros de campos da mais incerta objetivação; acaso não ouvimos um eclesiástico, cheio de boa vontade, prevalecer-se perante nós de sua intenção de aplicar os dados da psicanálise ao simbolismo cristão? Para cortar pela raiz essas extrapolações indevidas, basta sempre referir novamente a teoria a experiência.
E é nisso que o simbolismo, doravante reconhecido na primeira ordem de delinqüência que a psicanálise isolou como psicopatológica, deve permitir-nos precisar, em extensão e em compreensão, a significação social do edipianismo, bem como criticar o alcance da noção de supereu para o conjunto das ciências do homem.
Ora, em sua maior parte, senão em sua totalidade, os efeitos psicopatológicos em que se revelaram as tensões oriundas do edipianismo, não menos do que as coordenadas históricas que impuseram esses efeitos ao talento investigativo de Freud, permitem-nos pensar que eles exprimem uma deiscência do grupo familiar no seio da sociedade. Essa concepção, que se justifica pela redução cada vez mais estreita desse grupo a sua forma conjugal, e pela conseqüência que se segue do papel formador cada vez mais exclusivo que lhe é reservado nas primeiras identificações da criança e na aprendizagem das primeiras disciplinas, explica o aumento do poder captador desse grupo sobre o individuo, na medida mesma do declínio de seu poder social.
Evoquemos apenas, para fixar as idéias, o fato de que, numa sociedade matrilinear como a dos Zuni ou dos Hopi, os cuidados com a criança, a partir do momento de seu nascimento, cabem por direito a irma de seu pai, o que a inscreve, desde que ela vem a luz, num duplo sistema de relações parentais, que se enriquecerão a cada etapa de sua vida por uma crescente complexidade de relações hierarquizadas.
Esta portanto superando o problema de comparar as vantagens que pode apresentar, para a formação de um supereu suportável para o individuo, uma certa pretensa organização matriarcal da família, em relação ao triangulo clássico da estrutura edipiana. A experiência deixou patente, doravante, que esse triangulo e apenas a redução ao grupo natural, efetuada por uma evolução histórica, de uma formação em que a autoridade reservada ao pai, único traço subsistente de sua estrutura original, mostra-se, de fato, cada vez mais instável ou obsoleta, e as incidências psicopatológicas dessa situação devem ser referidas tanto a escassez das relações grupais que ela assegura ao individuo quanto a ambivalência cada vez maior de sua estrutura.
Essa concepção confirma-se pela noção de delinqüência latente a que Aichhorn foi conduzido, ao aplicar a experiência analítica aos jovens de quem estava encarregado a titulo de uma jurisdição especial. Sabemos que Kate Friedlander elaborou dela uma concepção genética, sob a rubrica do “caráter neurótico”, e também que os críticos mais informados, desde o próprio Aichhorn ate Glover, pareceram surpreender-se com a incapacidade da teoria de distinguir a estrutura desse caráter, enquanto criminogênica, da estrutura desse caráter, enquanto criminogênica, da estrutura da neurose, onde as tensões permanecem latentes nos sintomas.
A colocação aqui trabalha permite entrever que o “caráter neurótico” é o reflexo, na conduta individual, do isolamento do grupo familiar, cuja posição associal esses casos sempre demonstram, ao passo que a neurose exprime, antes, suas anomalias estruturais. Alias, o que exige uma explicação é menos a passagem ao ato delituoso, num sujeito encerrado no que Daniel Lagache qualificou, muito justificadamente, de conduta imaginária, do que os processos pelos quais o neurótico adapta-se parcialmente ao real: trata-se, como sabemos, dessas mutilações autoplásticas que podemos reconhecer na origem dos sintomas.
Essa referencia sociológica do “caráter neurótico” concorda, de resto, com a gênese que dele fornece Kate Friedlander, se e exato resumi-la como a repetição, através da biografia do sujeito, das frustrações pulsionais que estariam como que detidas num curto-circuito na situação edipiana, sem nunca mais se engajar numa elaboração estrutural.
A psicanálise, em sua apreensão dos crimes determinados pelo supereu, tem como efeito, portanto, irrealizá-los. No que se harmonia com um obscuro reconhecimento que há muito se impôs aos melhores dentre aqueles a quem coube assegurar a aplicação da lei.
Alias, as vacilações registradas na consciência social ao longo de todo o século XIX, quanto a questão do direito de punir, são características. Seguro de si e até implacável, desde que apareça uma motivação utilitária – a ponto de o uso inglês da época tomar o pequeno delito, até mesmo de furto, que desse ensejo a um homicídio, como equivalente a premeditação que define o assassinato (cf. Alimena, La premeditazione) -, o pensamento dos penalogistas hesita diante do crime em que surgem instintos cuja natureza escapa ao registro utilitarista no qual se manifesta o pensamento de um Benthan.
Uma primeira resposta foi dada pela concepção lombrosiona nos primórdios da criminologia, considerando esses instintos atávicos e fazendo do criminoso um sobrevivente de uma forma arcaica da espécie, biologicamente isolável. Resposta da qual podemos dizer que trai sobretudo uma regressão filosófica muito mais real em seu autores, e cujo sucesso só pode explicar-se pelas satisfações que a euforia de classe dominante podia exigir, tanto para seu conforto intelectual quanto sua consciência pesada.
Havendo as calamidades da Primeira Guerra Mundial marcado o fim dessas pretensões, a teoria lombrosiana foi devolvida aos tempos d’antanho, e o mais simples respeito pelas condições apropriadas a qualquer ciência humana, as quais julgamos ter que relembrar em nosso exórdio, impôs-se até mesmo ao estudo do criminoso.
The Individual Offender, de Healy, marcou época no retorno aos princípios, instituindo antes de mais nada o de que esse estudo devia ser monográfico. Os resultados concretos trazidos pela psicanálise marcam uma outra época, tão decisiva pela confirmação doutrinaria que ele dão a esse principio quanto pela amplitude dos fatos valorizados.
Do mesmo modo, a psicanálise soluciona um dilema da teoria criminológica: ao irrealizar o crime, ela não desumaniza o criminoso.
Mais ainda, pela mola da transferência ela da acesso ao mundo imaginário do criminoso, que pode ser para ele a porta aberta para o real.
Observem-se aqui a manifestação espontânea dessa mola na conduta do criminoso e transferência que tende a se produzir para pessoa de seu juiz, da qual seria fácil colher provas. Citemos apenas, pela beleza do fato, as confidencias do chamado Frank ao psiquiatra Gilbert, encarregado da boa apresentação dos réus no processo de Nuremberg: esse Maquiavel derrisório, e neurótico a tal ponto que a ordem insensata do fascino confiou-lhe suas grandes obras, sentia o remorso agitar sua alma ante a simples aparência de dignidade encarnada na figura de seus juízes, particularmente a do juiz inglês, “tão elegante”, em suas palavras.
Os resultados obtidos com “grandes” criminosos por Melitta Schmideberg, embora sua publicação esbarre no obstáculo com que deparam todas as nossas análises, mereceriam ser acompanhados em sua catamnese.
Seja como for, os casos que decorrem claramente do edipianismo deveriam se confiados ao analista, sem nenhuma das limitações que podem entravar sua ação.
Como não fazer a experiência inteira disso, quando a penalogia justifica-se tão mal que repugna a consciência popular aplicá-la até mesmo aos crimes reais, como se vê no célebre caso, na América, relatado por Grotjahn em seu artigo “Searchlights on delinquency”, onde se vê o júri absolver os acusados, para entusiasmo do público, embora todas as acusações parecessem incriminá-los na prova do assassinato, simulado de acidente marítimo, dos pais de um deles?
Concluamos estas considerações completando as conseqüências teóricas que decorrem da utilização da noção de supereu. O supereu, diremos, deve ser tomado como uma manisfetação individual, ligada as condições sociais do edipianismo. Assim e que as tensões criminosas incluídas na situações familiar só se tornam patogênicas nas sociedade onde essa própria situação se desintegra.
Nesse sentido, o supereu revela a tensão, tal como a doença as vezes esclarece uma função na fisiologia.
Mas, nossa experiência dos efeitos do supereu, assim como a observação direta da criança a luz dessa experiência, revela-nos seu surgimento num estádio tão precoce que ele parece ser contemporâneo ou mesmo anterior ao surgimento do eu.
Melaine Klein afirma as categorias do Bom e do Mau no estádio infans do comportamento, levando o problema da implicação retroativa das significações numa etapa anterior ao surgimento da linguagem. Sabemos como seu método, manejando, sem levar em conta nenhuma objeção, as tensões do edipianismo numa interpretação ultraprecoce das intenções da criança pequena, desatou esse no pela ação, não sem provocar discussões apaixonadas em torno de suas teorias.
O fato e que a persistência imaginaria dos bons e maus objetos primordiais, em comportamentos de fuga que podem colocar o adulto em conflito com suas responsabilidades, levaria o supereu a ser concebido como uma instancia psicológica que, no homem, tem uma significação genérica. Essa noção, no entanto, nada tem de idealista; ela se inscreve na realidade da miséria fisiológica própria dos primeiros meses de vida do homem, genérica de fato em relação ao meio humano.
Que essa dependência possa surgir como significante no individuo, num estádio incrivelmente precoce de seu desenvolvimento, não e um fato diante do qual o psicanalista deva recuar.
Se nossa experiência com os psicopatas levou-nos a articulação da natureza com a cultura, nela descobrimos essa instancia obscura, cega e tirânica que parece ser a antinomia, no pólo biológico do individuo, do ideal do Dever puro que o pensamento kantiano coloca como contraparte da ordem incorruptível do céu estrelado.
Sempre pronta a emergir da desordem das categorias sociais, para recriar, segundo a bela expressão de Hesnard, o Universo mórbido da falta (faute), essa instância só e apreensível , contudo, no estado psicopático, isto é, no individuo.
Nenhuma forma do supereu, portanto, é passível de ser inferida do individuo para uma dada sociedade. E o único supereu coletivo que se pode conceber exigiria uma desagregação molecular integral da sociedade. E é verdade que o entusiasmo em que vimos toda uma juventude sacrificar-se por ideais de nada faz-nos entrever sua realização possível no horizonte de fenômenos sociais de massa que assim suporiam uma escala universal.

IV. Do crime em suas relações com a realidade do criminoso: se a psicanálise fornece sua medida, ela indica seu móvel social fundamental

A responsabilidade, isto é, o castigo, é uma característica essencial da idéia do homem que prevalece numa dada sociedade.
Uma civilização cujos ideais sejam cada vez mais utilitários, empenhada como esta no movimento acelerado da produção, nada mais pode conhecer da significação expiatória do castigo. Se ela conserva seu peso exemplar, é tendendo a absorvê-lo em seu fim correcional. E alem do mais, este muda imperceptivelmente de objeto. Os ideais do humanismo se resolvem no utilitarismo do grupo. E, como o grupo que faz a lei não está, por razões sociais, completamente seguro da justiça dos fundamentos de seu poder, ele se remete a um humanitarismo em que se exprimem igualmente a revolta dos explorados e a consciência pesada dos exploradores, para os quais a noção de castigo tornou-se igualmente insuportável. A antinomia ideológica reflete, aqui como em outros aspectos, o mal-estar social. Ela agora busca sua solução numa formulação cientifica do problema, isto é, numa análise psiquiátrica do criminoso a que deve reportar-se, após examinar todas as medidas de prevenção contra o crime e de proteção contra sua recidiva, o que podemos designar como uma concepção sanitária da penalogia.
Essa concepção supõe resolvidas as relações do direito com a violência e o poder de uma policia universal. Com efeito, nós vimos a consideração que recebeu em Nuremberg e, embora o efeito sanitário desse processo continue duvidoso, no tocante a supressão dos males sociais que ele pretendia reprimir, o psiquiatra não poderia ter-lhe faltado, por razões de “humanidade” que podemos ver que decorrem mais do respeito pelo objeto humano que da noção do próximo.
A evolução do sentido do castigo corresponde, com efeito, uma evolução paralela da formação da prova do crime.
Começando nas sociedades religiosas pelo ordálio ou pela prova do juramento, em que ou se designa o culpado a partir das motivações das crenças ou ele oferece seu destino ao julgamento de Deus, a formação da prova, a medida que se precisa a personalidade jurídica do individuo, exige cada vez mais seu compromisso com a confissão. Por isso é que toda a evolução humanista do Direito na Europa, que começa com a redescoberta do Direito romano na Escola de Bolonha e vai até a completa captação da justiça pelos jurisconsultos reais e a universalização da noção de direito das nações, é estritamente correlata, no tempo e no espaço, da difusão da tortura, igualmente inaugurada em Bolonha como meio de formação da prova do crime. Fato cujo alcance até hoje não parece ter sido considerado.
E que o desprezo da consciência que se manifesta no ressurgimento geral dessa pratica como método de opressão oculta-nos que fé ele supõe no homem como procedimento de aplicação da justiça.
Se foi no exato momento em que nossa sociedade promulgou os direitos do homem, ideologicamente baseados na abstração de seu ser natural, que a tortura foi abandonada em seu uso jurídico, isso não se deu em razão de um abrandamento dos costumes, difícil de sustentar na perspectiva histórica que temos da realidade social do século XIX; pois esse novo homem, abstraído de sua consistência social, já não é digno de crédito, nem em um nem no outro sentido desse termo; ou seja, já não estando ele sujeito a pecar, não se pode dar credito a sua existência como criminoso, nem tampouco, do mesmo modo, a sua confissão. Desde então, é preciso que haja seus motivos, com os móveis do crime, e esses motivos e esses móveis devem ser compreensíveis, e compreensíveis para todos, o que implica – como o formulou uma das melhores mentes dentre aquelas que tentaram repensar a “filosofia penal” em sua crise, e isto com uma retidão sociológica digna de fazer com que se reveja um esquecimento injusto, estamo-nos referindo a Tarde – o que implica, diz ele, duas condições para a plena responsabilidade do sujeito: a similitude social e a identidade pessoal.
Portanto, esta aberta ao psicólogo a porta do pretório, e o fato de ele só raramente aparecer ali em pessoa prova tão-somente a carência social de sua função.
A partir desse momento, a “situação de réu”, para empregar a expressão de Roger Grenier, já não pode ser descrita senão como o encontro de verdades inconciliáveis, como fica patente ao se assistir ao menor processo do Tribunal do Júri em que um perito seja chamado a depor. E flagrante a falta de um denominador comum entre as referencias sentimentais em que se confrontam o ministério publico e o advogado, por serem as do júri, e as noções objetivas que o perito traz, mas que, pouco dialético, não consegue fazer apreender, por não conseguir com elas obter uma conclusão de irresponsabilidade.
E podemos ver essa discordância, no espírito do próprio perito, voltar-se contra sua função num ressentimento que se manifesta com prejuízo de seu dever; pois já houve o caso de um perito junto ao Tribunal que se recusou a qualquer outro exame, afora o físico, de um réu alias manifestamente valido sob o aspecto mental, entrincheirando-se atrás do Código sob a alegação de que não tinha que chegar a uma conclusão sobre a realidade do ato imputado ao sujeito pelo inquérito policial, embora uma pericia psiquiátrica o advertisse expressamente de que um simples exame por esse ponto de vista demonstrava com certeza que o ato em questão era de pura aparência e que, como gesto de repetição obsessiva, não podia constituir, no local fechado, embora vigiado, em que se havia produzido, um delito de exibicionismo.
Ao perito, no entanto, é conferido um poder quase discricionário na dosagem da pena, por menos que ele se sirva do adendo acrescentado pela lei, para sua utilização, ao artigo 64 do Código.
Mas, com o simples instrumento desse artigo, ainda que ele não possa responder sobre o caráter coercitivo da força que acarretou o ato do sujeito, ao menos pode descobrir quem sofreu essa coerção.
A essa pergunta, porém, só o psicanalista pode responder, na medida em que só ele tem uma experiência dialética do sujeito.
Observe-se que um dos primeiros elementos cuja autonomia psíquica essa experiência o ensinou a apreender, ou seja, o que a teoria aprofundou progressivamente como representando a instancia do eu, é também aquilo que, no diálogo analítico, é declarado pelo sujeito como sendo dele mesmo, ou,mais exatamente, aquilo que, tanto por seus atos quanto por suas intenções, possui a declaração do sujeito. Ora, dessa declaração Freud reconheceu a forma que é mais característica da função que ela representa: é a Verneinung, a denegação.
Poderíamos descrever aqui toda uma semiologia das formas culturais pelas quais se comunica a subjetividade, a começar pela restrição mental característica do humanismo cristão – e que se recriminou tanto aqueles admiráveis moralistas que foram os jesuítas por haverem codificado seu uso – continuando pelo Kêtman, uma espécie de exercício de proteção contra a verdade que Gobineau nos indica ser geral, em seus relatos tão penetrantes sobre a vida social do Oriente Médio, e passando para o Jang, cerimonial de recusas que a polidez chinesa estabelece como graus no reconhecimento do outro, para reconhecer a forma mais característica de expressão do sujeito na sociedade ocidental, no protesto de inocência, e dizer que a sinceridade e o primeiro obstáculo encontrado pela dialética na busca das verdadeiras intenções, parecendo o uso primário da fala ter por fim disfarçá-las.
Mas, esse é apenas o afloramento de uma estrutura que se encontra através de todas as etapas da gênese do eu, e mostra que a dialética fornece a lei inconsciente das formações, mesmo as mais arcaicas, do aparelho de adaptação, assim confirmando a gnoseologia de Hegel, que formula a lei geradora da realidade no processo tese-antítese-síntese. E decerto é instigante ver os marxistas se esforçarem por descobrir,no progresso das noções essencialmente idealistas que constituem as matemáticas, os vestígios imperceptíveis desse processo, e desconhecerem sua forma ali onde ela deve com mais probabilidade aparecer, isto é, na única psicologia que manifestamente toca no concreto, por menos que sua teoria se declare guiada por essa forma.
E ainda mais significativo reconhecê-la na sucessão das crises – desmame, intrusão, Édipo, puberdade, adolescência – que reformulam, cada uma delas, uma nova síntese dos aparelhos do eu, numa forma cada vez mais alienante para as pulsões que ali são frustradas, e cada vez menos ideal para as que ali encontram sua normalização. Essa forma é produzida pelo fenômeno psíquico mais fundamental, talvez, que a psicanálise descobriu: a identificação, cujo poder formativo revela-se até na biologia. E cada um dos chamados períodos de latência pulsional (cuja serie correspondente e complementada pelo que Franz Wittels descobriu quanto ao ego adolescente) é caracterizado pelo predomínio de uma estrutura típica dos objetos do desejo.
Um de nos descreveu, na identificação do sujeito infans com a imagem especular, o modelo que ele considera mais significativo, ao mesmo tempo que o momento mais original da relação fundamentalmente alienante em que o ser do homem se constitui dialeticamente.
Ele demonstrou também que cada uma dessas identificações desenvolve uma agressividade que a frustração pulsional não basta para explicar, a não ser na compreensão do comum sense, tão cara ao Sr. Alexander, mas que exprime a discordância que se produz na realização alienante: fenômeno cuja noção podemos exemplificar através da forma caricata que dele fornece a experiência com animais na ambigüidade crescente (como a de uma elipse para um circulo) de sinais inversamente condicionados.
Essa tensão manifesta a negatividade dialética inscrita nas próprias formas em que se entranham no homem as forcas da vida, e podemos dizer que o talento de Freud deu a medida dela ao reconhecê-la como “pulsão do eu” sob o nome de instinto de morte.
Toda forma do eu encarna, com efeito, essa negatividade, e podemos dizer que se Clotó, Láquesis e Atropos partilham entre si o cuidado com nosso destino, é de comum acordo que elas torcem o fio de nossa identidade.
Assim, como a tensão agressiva ao integrar a pulsão frustrada cada vez que a falta de adequação do “outro” faz abortar a identificação resolutiva, ela determina com isso um tipo de objeto que se torna criminogênico na suspensão da dialética do eu.
Foi da estrutura desse objeto que um de nós tentou mostrar o papel funcional e a correlação com o delírio em duas formas extremas de homicídio paranóico, o caso “Aimée” e o das irmãs Papin. Este último caso comprova que só o analista pode demonstrar, contrariando o sentimento comum, a alienação da realidade do criminoso, num caso em que o crime dá a ilusão de responder a seu contexto social.
São também essas estruturas do objeto que Anna Freud, Kate Friedlander e Bowlby determinam, como analistas, nos casos de furto em jovens delinqüentes, conforme neles se manifeste o simbolismo do dom do excremento ou a reivindicação edipiana, a frustração da presença nutriz ou a da masturbação fálica – e a noção de que essa estrutura corresponde a um tipo de realidade que determina os atos do sujeito guia a parte que eles chamam de educativa em sua conduta para com eles.
Educação que é, antes, uma dialética viva, segundo a qual o educador, através de sue não-agir, leva as agressões próprias ao eu a se ligarem para o sujeito, alienando-se em suas relações com o outro, para que ele possa então desligá-las através das manobras da analise clássica.
E, certamente, a engenhosidade e a paciência que admiramos nas iniciativas de um pioneiro como Aichhorn não fazem esquecer que sua forma tem que ser sempre renovada, para superar as resistências que o “grupo agressivo” não pode deixar de manifestar contra qualquer técnica aceita.
Tal concepção da ação “correcional” opõe-se a tudo o que possa inspirar uma psicologia que se rotula de genética, a qual, na criança, só faz medir suas aptidões decrescentes para responder as perguntas que lhe são feitas no registro puramente abstrato das categorias mentais do adulto, e que basta para derrubar a simples apreensão do fato primordial de que a criança, desde suas primeiras manifestações de linguagem, serve-se da sintaxe e das partículas de acordo com nuances que os postulados da “gênese” mental só deveriam permitir-lhe atingir no auge de uma carreira de metafísico.
E já que essa psicologia pretende atingir, sob esses aspectos cretinizados, a realidade da criança, dizemos que é ao pedante que podemos realmente advertir que ele terá de corrigir seu erro, quando as palavras “Viva a morte”, proferidas por lábios que não sabem o que dizem, fizerem-no entender que a dialética circula ardente na carne, junto com o sangue.
Essa concepção especifica ainda o tipo de pericia que o analista pode fornecer da realidade do crime, fundamentando-se no estudo do que podemos chamar de técnicas negativistas do eu, sejam elas sofridas pelo criminoso ocasional ou dirigidas pelo criminoso contumaz: a saber, a inutilização basal das perspectivas espaciais e temporais exigidas pela previsão intimidante em que se fia ingenuamente a chamada teoria “hedonista” da penalogia: a supressão progressiva dos interesses no campo da tentação objetal, o retraimento do campo da consciência, proporcional a uma apreensão sonambúlica do imediato na execução do ato, e sua coordenação estrutural com fantasias que dele ausentam o autor – anulação ideal ou criações imaginárias em que se inserem, conforme uma espontaneidade inconsciente, as denegações, os álibis e as simulações em que se sustenta a realidade alienada que caracteriza o sujeito.
Queremos dizer aqui que toda essa cadeia não tem comumente a organização arbitrária de uma conduta deliberada, e que as anomalias estruturais que o analista nela possa destacar serão, para ele, outros tantos referenciais no caminho da verdade. Assim, ele interpretara mais profundamente o sentido dos traços freqüentemente paradoxais pelos quais se designa o autor do crime, e que menos significam os erros de uma execução imperfeita do que os fiascos de uma “psicopatologia cotidiana” por demais real.
As identificações anais, que a analise descobriu nas origens do eu, dão seu sentido ao que a medicina legal designa, no jargão policial, pelo nome de “cartão de visita”. A “assinatura” deixada pelo criminoso, muitas vezes flagrante, pode indicar em que momento da identificação do eu se produziu a repressão pela qual é possível dizer que o sujeito não pode responder por seu crime, e também pela qual ele permanece preso em sua denegação.
Até mesmo no fenômeno do espelho, em que um caso recentemente publicado pela Srta. Boutonier mostra-nos a mola de um despertar do criminoso para a consciência daquilo que o condena.
Essas repressões, haveremos nós de recorrer, para superá-las, a um desses métodos de narcose tão singularmente promovidos a ordem do dia pelos sustos que provocam nos virtuosos defensores da inviolabilidade da consciência?
Ninguém há de se extraviar menos que o psicanalista nesse caminho, antes de mais nada porque, contrariando a mitologia confusa em nome da qual os ignorantes esperam a “suspensão das censuras”, o psicanalista sabe o sentido exato das repressões que definem os limites da síntese do eu.
Por conseguinte, se ele já sabe que, no tocante ao inconsciente recalcado, quando a analise o restaura na consciência, e menos o conteúdo de sua revelação do que a mola de sua reconquista que constitui a eficácia do tratamento, a fortiori, no tocante as determinações inconscientes que sustentam a própria afirmação do eu, ele sabe que a realidade, quer se trate da motivação do sujeito, quer, as vezes, de sua própria ação, só pode aparecer através do progresso de um dialogo que o crepúsculo narcótico só poderia tornar inconsistente. Aqui, como em outros lugares, a verdade não e um dado que se possa captar em sua inércia, mas uma dialética em marcha.
Não busquemos a realidade do crime, portanto, nem tampouco a do criminoso, por meio da narcose. Os vaticínios que ela provoca, desnorteantes para o investigador, são perigosos para o sujeito que, por menos que participe de uma estrutura psicótica, pode encontrar nela o “momento fecundo” de um delírio.
A narcose, como a tortura, tem seus limites: não pode fazer o sujeito confessar aquilo que ele não sabe.
Assim, nas Questões medico-legais , que o livro de Zacchias nos atesta terem sido formuladas desde o século XVII em torno da noção de unidade da personalidade e das possíveis rupturas que nela pode introduzir a doença, a psicanálise traz o aparato de exame que abarca mais um campo de ligação entre a natureza e a cultura: aqui, o da síntese pessoal, em sua dupla relação de identificação formal, por um lado, que se abre para as hiânsias das dissoluções neurológicas (desde as crises epiléticas ate as amnésias orgânicas), e, por outro, de assimilação alienante, que se abre para as tensões das relações grupais.
Aqui, o psicanalista pode apontar ao sociólogo as funções criminogênicas próprias de uma sociedade que, exigindo uma integração vertical extremamente complexa e elevada da colaboração social, necessária a sua produção, propõe aos sujeitos, aos que ele se dedica, ideais individuais que tendem a se reduzir a um plano de assimilação cada vez mais horizontal.
Essa fórmula designa um processo cujo aspecto dialético podemos exprimir sucintamente, observando que, numa civilização em que o ideal individualista foi alçado a um grau de afirmação ate então desconhecido, os indivíduos descobrem-se tendendo para um estado em que pensam, sentem, fazem e amam exatamente as mesmas coisas nas mesmas horas, em porções do espaço estritamente equivalentes.
Ora, a noção fundamental da agressividade correlata a qualquer identificação alienante permite discernir que deve haver, nos fenômenos de assimilação social a partir de uma certa escala quantitativa, um limite, no qual as tensões agressivas uniformizadas tem de se precipitar em pontos onde a massa se rompe e se polariza.
Sabemos alias, que esses fenômenos, sob o simples ponto de vista da produtividade, já chamaram a atenção dos exploradores do trabalho que não ficam apenas nas palavras, e justificaram, para a Hawthorne Western Eletric , a despesa de um estudo sistemático das relações de grupo em seus efeitos sobre as disposições psíquicas mais desejáveis nos empregados.
Uma separação completa, por exemplo, entre o grupo vital, constituído pelo sujeito e pelos seus, e o grupo funcional, em que devem ser encontrados os meios de subsistência do primeiro, fato que basta ilustrar dizendo que ele torna verossímil o Sr. Verdoux – uma anarquia tão maior das imagens do desejo quanto mais elas parecem gravitar progressivamente em torno de satisfações escopofílicas, homogeneizadas na massa social, e pela posse e pelo prestigio nos ideais sociais, são outros tantos objetos de estudos para os quais a teoria analítica pode oferecer ao estatístico coordenadas corretas para introduzir suas mensurações.
Assim, o próprio político e o filosofo se beneficiado disso, conotando, numa dada sociedade democrática cujos costumes estendem sua dominação sobre o mundo, o surgimento de uma criminalidade recheando o corpo social, a ponto de assumir nele formas legalizadas, a inserção do tipo psicológico do criminoso entre os do recordista, do filantropo ou da estrela famosa, ou então sua redução ao tipo geral da servidão do trabalho, com a significação social do crime reduzida a seu uso publicitário.
Essas estruturas, nas quais uma assimilação social do indivíduo, levada ao extremo, mostra sua correlação com uma tensão agressiva cuja relativa impunidade no Estado é muito perceptível para um sujeito de uma cultura diferente (como era, por exemplo, o jovem Sun Yat Sen), aparecem invertidas quando, segundo um processo formal já descrito por Platão, a tirania sucede a democracia e efetua com os indivíduos, reduzidos a seu numero ordinal, o ato cardinal da adição, prontamente seguido pelas outras três operações fundamentais da aritmética.
E assim que, na sociedade totalitária, se a “culpa objetiva” dos dirigentes faz com que eles sejam tratados como criminosos e responsáveis, o apagamento relativo dessas noções, indicado pela concepção sanitária da penalogia, rende frutos para todos os outros. Abre-se o campo de concentração, para cuja alimentação as qualificações intencionais da rebelião são menos decisivas do que uma certa relação quantitativa entre as massas social e a massa excluída.
Sem duvida será possível avaliá-lo nos termos da mecânica desenvolvida pela chamada psicologia de grupo, permitindo determinar a constante irracional que deve corresponder a agressividade característica da alienação fundamental do individuo.
Assim, na injustiça mesma da polis – sempre incompreensível para o “intelectual” submetido a “lei do coração” – revela-se o progresso em que o homem se cria a sua própria imagem.

V. Da inexistência dos “instintos criminosos”: a psicanálise detém-se na objetivação do Isso e reivindica a autonomia de uma experiência irredutivelmente subjetiva

Se a psicanálise traz os esclarecimentos que dissemos a objetivação psicológica do crime e do criminoso, não terá ela também uma palavra a dizer sobre seus fatores inatos?
Observemos, primeiramente, a critica a que convém submeter a idéia confusa em que se fiam muitos homens de bem: a que vê no crime uma irrupção dos “instintos” que derrubam a “barreira” das forcas morais de intimidação. E uma imagem difícil de extirpar, pela satisfação que dá até mesmo as cabeças sisudas, ao lhes mostrar o criminoso fortemente guardado e o guarda tutelar, que, por ser característico de nossa sociedade, passa aqui a uma tranqüilizadora onipresença.
Pois, se o instinto significa efetivamente a incontestável animalidade do homem, não vemos por que esta seria mais dócil por estar encarnada num ser racional. A forma do adágio homo homini lupus é enganosa quanto a seu sentido, e Balthazar Gracian, num capitulo de seu Criticon, inventa um fabula em que mostra o que quer dizer a tradição moralista ao exprimir que a ferocidade do homem em relação a seu semelhante ultrapassa tudo o que podem fazer os animais, e que, ante a ameaça que ela representa para a natureza inteira, os próprios carniceiros recuam horrorizados.
Mas essa própria crueldade implica a humanidade. E um semelhante que ela visa, mesmo num ser de outra espécie. Nenhuma experiência sondou mais que a do analista, na vivência, a equivalência de que nos adverte o patético apelo do Amor – é a ti mesmo que atinges – e a gélida dedução do Espírito: é na luta mortal de puro prestígio que o homem se faz reconhecer pelo homem.
Se, num outro sentido, designam-se por instintos certas condutas atávicas cuja violência teria sido exigida pela lei da selva primitiva, e que qualquer enfraquecimento fisiopatológico libertária, a maneira dos impulsos mórbidos, do nível inferior em que elas estariam contidas, podemos indagar-nos por que, desde que o homem é homem, também não se revelaram nele impulsos de lavrar, plantar, cozinhar, ou até mesmo de enterrar os mortos.
A psicanálise decerto comporta uma teoria dos instintos, bastante elaborada e, para dizer a verdade, a primeira teoria verificável que deles se fez no homem. Mas ela os mostra comprometidos com um metamorfismo em que a fórmula de seu órgão, de sua direção e de seu objeto é uma faca de Jeannot com peças infinitamente intercambiáveis. Os Triebe ou pulsões que ali se isolam constituem apenas um sistema de equivalências energéticas em que referenciamos as trocas psíquicas, não na medida em que elas se subordinem a alguma conduta inteiramente montada, natural ou adquirida, mas na medida em que simbolizam, ou integram dialeticamente, as funções dos órgãos em que aparecem as trocas naturais, isto é, os orifícios bucal, anal e gênito-urinário.
Por conseguinte, essas pulsões só nos aparecem em ligações muito complexas, onde sua própria deformação não pode fazer com que se prejulgue sua intensidade originária. Falar de um excesso de libido é uma formulação desprovida de sentido.
Se há de fato uma noção que se depreende de um grande numero de indivíduos, capazes, tanto por seus antecedentes quanto pela impressão “constitucional” que se retira do contato com eles e de seu aspecto, de dar a idéia de “tendências criminosas”, trata-se mais de uma deficiência que de um excesso vital. A hipogenitalidade deles é freqüentemente manifesta, e seu clima irradia frieza libidinal.
Se numerosos sujeitos, em seus delitos, exibições, furtos, calotes e difamações anônimas, ou nos crimes da paixão homicida, encontram e buscam um estimulo sexual, este, sejam quais forem os mecanismos que o causam, angustia, sadismo ou associação situacional, não poderia ser tido como um efeito de transbordamento dos instintos.
Seguramente, é evidente a correlação de numerosas perversões nos sujeitos que vão a exame criminológico, mas ela só pode ser psicanaliticamente avaliada em função da fixação objetal, da estagnação do desenvolvimento, da implicação, na estrutura do eu, dos recalques neuróticos que constituem o caso individual.
Mais concreta é a noção com que nossa experiência completa a tópica psíquica do indivíduo – a do Isso -, porém, igualmente quão mais difícil que as outras de apreender.
Fazer a soma das predisposições inatas é uma definição puramente abstrata e sem valor de uso.
O termo constante situacional, fundamental naquilo que a teoria designa por automatismo de repetição, parece relacionar-se com isso, deduzidos os efeitos do recalcado e das identificações do eu, e pode ser de interesse nos casos de recidiva.
O Isso também implica, sem duvida, as escolhas fatais manifestas no casamento, na profissão ou na amizade, e que amiúde aparecem no crime como uma revelação das figuras do destino.
As “tendências” do sujeito, por outro lado, não deixam de mostrar deslizamentos ligados ao nível de sua satisfação. Gostaríamos de levantar a questão dos efeitos que pode ter ai um certo indicio de satisfação criminosa.
Mas, nesse ponto, talvez estejamos nos limites de nossa ação dialética, e a verdade que nos é dado reconhecer com o sujeito não pode ser reduzida a objetivação cientifica.
Pela confissão que recebemos do neurótico ou do perverso sobre o gozo inefável que eles obtêm ao se perderem na imagem fascinante, podemos avaliar o poder de hedonismo que nos introduzirá nas relações ambíguas da realidade com o prazer. Se, ao nos referirmos a esses dois grandes princípios, descrevemos o sentido de um desenvolvimento normativo, como não ser captados pela importância das funções fantasísticas nos motivos desse progresso, e quão cativa permanece a vida humana da ilusão narcísica que sabemos tecer suas coordenadas mais “reais”? E, por outro lado, já não está tudo pesado, junto ao berço, nas incomensuráveis balanças da Discórdia e do Amor?
Para-alem dessas antinomias que nos levam ao limiar da sabedoria, não há crime absoluto, e existem ainda, malgrado a ação policial estendida por nossa civilização ao mundo inteiro, associações religiosas ligadas por uma prática do crime, onde seus adeptos sabem encontrar as presenças sobre-humanas que, no equilíbrio do Universo, zelam pela destruição.
Para nós, dentro dos limites que nos esforçamos por definir como aqueles a que nossos ideais sociais reduzem a compreensão do crime, e que condicionam sua objetivação criminológica, se nos é possível trazer uma verdade de um rigor mais justo, não nos esqueçamos de que devemos isso a uma função privilegiada: a do recurso do sujeito ao sujeito, que inscreve nossos deveres na ordem da fraternidade eterna: sua regra é também a regra de toda noção permitida a nós.

A agressividade em Psicanálise - JACQUES LACAN

Relatório teórico apresentado no XI Congresso de Psicanálise de Língua Francesa, reunido em Bruxelas em meados de maio de 1948.

O relatório precedente apresentou-lhes o emprego que fazemos da noção de agressividade na clinica e na terapêutica. Resta-me a tarefa de provar perante os senhores se é possível formar dela um conceito tal que ela possa aspirar a um uso cientifico,isto é, apropriado a objetivar fatos de uma ordem comparável na realidade, ou,mais categoricamente, a estabelecer uma dimensão da experiência cujos fatos objetivados possam ser considerados como variáveis.
Todos temos em comum, nesta assembléia, uma experiência fundamentada numa técnica, num sistema de conceitos ao qual somos fiéis, tanto por ele ter sido elaborado por aquele mesmo que nos abriu todos os caminhos dessa experiência, quanto por trazer a marca viva das etapas dessa elaboração. Ou seja, ao sistema permanente aberto, não apenas em seu acabamento, mas em vários de seus pontos de articulação.
Esses hiatos parecem conjugar-se na significação enigmática que Freud promoveu como instinto de morte: testemunho, semelhante a figura da Esfinge, da aporia contra a qual se chocou esse grande pensamento, na mais profunda tentativa já surgida de formular uma experiência do homem no registro da biologia.
Essa aporia está no cerne da noção de agressividade, sobre a qual avaliamos melhor a cada dia o papel que convém atribuir-lhe na economia psíquica.
Eis por que a questão da natureza metapsicológica das tendências mortíferas é incessantemente recolocada em pauta por nossos colegas teóricos, não sem contradição e, freqüentemente, convém dizer, com certo formalismo.
Quero apenas propor-lhes algumas observações ou teses que me foram inspiradas por minhas reflexões de longa data em torno dessa verdadeira aporia da doutrina, e também pelo sentimento que tenho, a partir da leitura de numerosos trabalhos, de nossa responsabilidade na atual evolução da psicologia de laboratório e de tratamento. Penso, por um lado, nas chamadas pesquisas behavoristas, que me parecem dever o melhor de seus resultados (que as vezes se nos afiguram um tanto escassos para o aparato de que se cercam) ao uso, amiúde implícito, que fazem das categorias que a analise trouxe para a psicologia; por outro, nesse gênero de tratamento – quer se dirija aos adultos ou as crianças – que se pode agrupar sob a denominação de tratamento psicodramático, que busca sua eficácia na ab-reação que ele tenta esgotar no plano da dramatização, e onde, mais uma vez, a analise clássica fornece as noções eficazmente diretivas.

TESE I: A agressividade se manifesta numa experiência que é subjetiva por sua própria constituição

Não é inútil, com efeito, voltar ao fenômeno da experiência psicanalítica. Por visar dados primários, essa reflexão é freqüentemente omitida.
Podemos dizer que a ação psicanalítica se desenvolve na e pela comunicação verbal, isto é, numa apreensão dialética do sentido. Ela supõe, portanto, um sujeito que se manifeste como tal para um outro.
Essa subjetividade não nos pode ser objetada como devendo ser obsoleta, conforme o ideal a que satisfaz a física, que a elimina através do aparelho registrador, sem no entanto poder evitar a suspeita do erro pessoal na leitura do resultado.
Somente um sujeito pode compreender um sentido; inversamente, todo fenômeno de sentido implica um sujeito. Na análise, um sujeito se dá como podendo ser compreendido, e de fato o é: a instrospecção e a intuição pretensamente projetiva não constituem aqui, os vícios de princípio que uma psicologia, em seus primeiros passos no caminho da ciência, considerou irredutíveis. Isso equivaleria a transformar em impasse momentos abstratamente isolados do diálogo, quando é preciso fiar-se em seu movimento: foi mérito de Freud ter assumido os riscos deles, antes de dominá-los através de uma técnica rigorosa.
Podem seus resultados fundar uma ciência positiva? Sim, se a experiência for controlável por todos. Ora, constituída entre dois sujeitos, dos quais um desempenha no diálogo um papel de impessoalidade ideal (ponto que requererá mais adiante nossa atenção), a experiência, uma vez consumada, e unicamente sob as condições de capacidade exigíveis para qualquer investigação especial, pode ser retomada pelo outro sujeito com um terceiro. Essa via aparentemente iniciática é apenas uma transmissão por recorrência, com a qual não há por que nos surpreendermos, já que ela se prende a própria estrutura, bipolar, de toda subjetividade. Somente a velocidade de difusão da experiência é afetada por ela, e, se sua restrição a ares de uma cultura e discutível, não só nenhuma antropologia sadia pode extrair disso uma objeção, como tudo indica que seus resultados possam ser suficientemente relativizados para uma generalização que satisfaça ao postulado humanístico, inseparável do espírito da ciência.

TESE II: A agressividade, na experiência, nos é dada como intenção de agressão e como imagem de desmembramento corporal, e é nessas modalidades que se demonstra eficiente

A experiência analítica permite-nos experimentar a pressão intencional. Nós a lemos no sentido simbólico dos sintomas, a partir do momento em que o sujeito renuncia as defesas pelas quais os desvincula das relações que eles mantêm com sua vida cotidiana e com sua historia – na finalidade implícita de suas condutas e suas recusas, nos fracassos de sua ação, na confissão de suas fantasias privilegiadas, nos rébus da vida onírica.
Quase podemos medi-la na modulação reivindicatória que as vezes sustenta todo o discurso, em suas suspensões, suas hesitações, suas inflexões e seus lapsos, nas inexatidões do relato, nas irregularidades da aplicação da regra, nos atrasos para as sessões, nas ausências premeditadas, muitas vezes nas recriminações, nas censuras, nos medos fantasísticos, nas reações emocionais de cólera e nas demonstrações para fins intimidatórios, sendo tão raras as violências propriamente ditas quanto o implicam a conjuntura de apelo que levou ao médico o doente e a transformação dela, aceita por este último, numa convenção de dialogo.
A eficácia própria dessa intenção agressiva é manifesta: nós a constatamos freqüentemente na ação formadora de um individuo sobre as pessoas de sua dependência: a agressividade intencional corrói, mina, desagrega; ela castra; ela conduz a morte: “E eu que acreditava que você era impotente!”, gemia num uivo de tigresa uma mãe a seu filho, que acabara de lhe confessar, não sem dificuldade, suas tendências homossexuais. E pudemos ver que sua permanente agressividade de mulher viril não deixara de surtir efeitos; sempre nos foi impossível, em casos semelhantes, desviar seus ataques da própria empreitada analítica.
Essa agressividade se exerce, é claro, em meio a restrições reais. Mas sabemos por experiência que ela é não menos eficaz pela via da expressividade: um genitor severo intimida pela simples presença, e basta que seja brandida a imagem do Punidor para que a criança a forme. Ela tem repercussões mais amplas do que qualquer sevicia.
Esses fenômenos mentais a que chamamos imagens, termo cujo valor expressivo é confirmado por todas as acepções semânticas, após os perpétuos fracassos registrados pela psicologia de tradição clássica na tarefa de dar conta deles, a psicanálise foi a primeira a se revelar a altura da realidade concreta que eles representam. E que ela partiu da função formadora das imagens no sujeito e revelou que, se as imagens atuais determinam tais ou quais inflexões individuais das tendências, é na condição de variações das matrizes que constituem, para os próprios “instintos”, esses outros específicos que fazemos corresponder a antiga denominação de imago.
Entre estes últimos, há os que representam os vetores eletivos das intenções agressivas, que elas dotam de uma eficácia que podemos chamar de mágica. São as imagens de castração, emasculação, mutilação, desmembramento, desagregação, eventração, devoração, explosão do corpo, em suma, as imagos que agrupei pessoalmente sob a rubrica, que de fato parece estrutural, de imagos do corpo despedaçado.
Há aí uma relação específica do homem com seu próprio corpo, que se manifesta igualmente na generalidade de uma série de práticas sociais – desde os ritos da tatuagem, da incisão e da circuncisão, nas sociedades primitivas, até aquilo que poderíamos chamar de arbitrariedade procustiana da moda, na medida em que ela desmente, nas sociedades avançadas, o respeito as formas naturais do corpo humano, cuja idéia é tardia na cultura.
Basta escutar a fabulação e as brincadeiras das crianças, isoladas ou entre si, entre os dois e os cinco anos, para saber que arrancar a cabeça e furar a barriga são temas espontâneos de sua imaginação, que a experiência da boneca desmantelada só faz satisfazer.
Há que folhear um álbum que reproduza o conjunto e os detalhes da obra de Hieronymus Bosch, para ali reconhecer o atlas de todas as imagens agressivas que atormentam os homens. A prevalência dentre elas, descoberta pela análise, das imagens de uma autoscopia primitiva dos órgãos orais e derivados da cloaca gerou, ali, formas de demônios. Não faltam nem mesmo a ogiva das angustiae do nascimento, que encontramos na porta dos precipícios para onde eles empurram os condenados, nem a estrutura narcísica, que podemos evocar nas esferas de vidro em que se acham aprisionados os parceiros exaustos do jardim das delícias.
Reencontramos incessantemente essas fantasmagorias nos sonhos, particularmente no momento em que a análise parece vir refletir-se no fundo das fixações mais arcaicas. E evocarei o sonho de um de meus pacientes, em quem as fantasias agressivas manifestavam-se por fantasias obsedantes; no sonho, ele se via, perseguido por um peixe voador, cujo corpo de bexiga de ar deixava transparecer um nível de liquido horizontal, imagem de perseguição vesical de grande beleza anatômica.
Todos esses são dados primordiais de uma Gestalt própria da agressão no homem e ligada ao caráter simbólico, não menos do que ao cruel refinamento das armas que ele fabrica, pelo menos no estagio artesanal de sua indústria. Essa função imaginária se esclarecerá em nossas colocações.
Notamos aqui que, ao se tentar uma redução behavorista do processo analítico – coisa a que uma preocupação com o rigor, a meu ver injustificada, impeliria alguns de nós -, ele é mutilado de seus dados subjetivos mais importantes, dos quais as fantasias privilegiadas são as testemunhas na consciência e que nos permitiram conceder a imago, formadora da identificação.

TESE III: Os impulsos de agressividade decidem sobre as razoes que motivam a técnica da análise

O diálogo em si parece constituir uma renúncia a agressividade; a filosofia, desde Sócrates, sempre depositou nele a esperança de fazer triunfar a via racional. E, no entanto, desde o momento em que Trasímaco fez sua retirada demente no começo do grande diálogo da Republica, o fracasso da dialética verbal só tem feito demonstrar-se com imensa freqüência.
Sublinhei que o analista curava pelo diálogo, e curava loucuras igualmente grandes; que virtude, portanto, acrescentou-lhe Freud?
A regra proposta ao paciente na análise deixa-o avançar por uma intencionalidade cega para qualquer outro fim que não sua libertação de um sofrimento ou de uma ignorância dos quais ele nem sequer conhece os limites.
Sua voz é a única a se fazer ouvir, por um tempo cuja duração fica a critério do analista. Particularmente, logo lhe fica patente, e aliás confirmada, a abstenção do analista em lhe responder em qualquer plano de conselho ou projeto. Há nisso um limite que parece ir ao encontro do fim desejado e que deve justificar-se por algum motivo profundo.
Que preocupação condiciona, portanto, diante dele a atitude do analista? A de oferecer ao diálogo um personagem tão desprovido quanto possível de características individuais; nós nos apagamos, saímos do campo em que possam ser percebidos o interesse, a simpatia e a relação buscados por aquele que fala no rosto do interlocutor; evitamos qualquer manifestação de nossos gostos pessoais, escondemos o que pode traí-los, nos despersonalizamos e tendemos, para esse fim, a representar para o outro um ideal de impassibilidade.
Nisso, nós exprimimos apenas a apatia que tivemos de realizar em nós mesmos para estar em condições de compreender nosso sujeito, nem tampouco preparamos o realce de oráculo que, contra esse fundo de inércia, deve assumir nossa intervenção interpretativa.
Queremos evitar uma cilada, que esse apelo já encerra, marcado pelo eterno patético da fé, que o doente nos dirige. Ele comporta um segredo; “Toma para ti”, dizem-nos, “essa dor que pesa sobre meus ombros; mas, satisfeito, sereno e confortável como te vejo, não podes ser digno de portá-la.”
O que aqui aparece como orgulhosa reivindicação do sofrimento mostrará sua face – e, as vezes, num momento tão decisivo que entra na “reação terapêutica negativa” que reteve a atenção de Freud – sob a forma da resistência do amor-próprio, para tomarmos esse termo em toda a profundidade que lhe deu La Rochefocauld, e que amiúde se declara assim: “Não posso aceitar a idéia de ser libertado por outro que não eu mesmo.”
Claro, numa exigência mais insondável do coração, é a participação em seu sofrimento que o doente espera de nós. Mas é a reação hostil que guia nossa prudência, e que já inspirara a Freud sua cautela contra qualquer tentação de bancar o profeta. Somente os santos são suficientemente desprendidos da mais profunda das paixões comuns para evitar os contragolpes agressivos da caridade.
Quanto a citar o exemplo de nossas virtudes e nossos méritos, nunca vi recorrer a isso senão um certo grande padroeiro, totalmente imbuído de uma idéia austera quanto inocente de seu valor apostólico; e penso ainda no furor que ele desencadeou.
Alias, como nos surpreendemos com essas reações, nós que denunciamos os impulsos agressivos ocultos sob todas as chamadas atividades filantrópicas?
Devemos, no entanto, pôr em jogo a agressividade do sujeito a nosso respeito, já que essas intenções, como sabemos, compõem a transferência negativa que é o nó inaugural do drama analítico.
Esse fenômeno representa, no paciente, a transferência imaginária, para nossa pessoa, de uma das imagos mais ou menos arcaicas que, por um efeito de subdução simbólica, degrada, desvia ou inibe o ciclo de uma dada conduta, que, por um acidente de recalque, exclui do controle do eu uma dada função e um dado segmento corporal, que, por uma ação de identificação, deu sua forma a tal instância da personalidade.
Podemos ver que basta o pretexto mais fortuito para provocar a intenção agressiva que reatualiza a imago, instalada permanentemente no plano de sobredeterminação simbólica a que chamamos o inconsciente do sujeito, com sua correlação intencional.
Tal mecanismo revela-se, muitas vezes, extremamente simples na histeria: no caso de uma moça afetada por astasia-abasia, que vinha há meses resistindo ás tentativas de sugestão terapêutica dos mais diversos estilos, meu personagem viu-se imediatamente identificado com a constelação dos mais desagradáveis traços que para ela era concretizada pelo objeto de uma paixão, aliás bastante marcada por um toque delirante. A imago subjacente era a de seu pai, de quem bastou que eu a fizesse observar que lhe faltara o apoio (carência que eu sabia haver efetivamente dominado sua biografia, e num estilo muito romanesco) para que ela se descobrisse curada de seu sintoma, sem que, poderíamos dizer, nada entendesse do que havia acontecido, e sem que a paixão mórbida, aliás, fosse afetada por isso.
Esses nos são mais difíceis de desatar, como se sabe, na neurose obsessiva, justamente pelo fato, muito conhecido por nós, de sua estrutura ser particularmente destinada a camuflar, deslocar, negar, dividir e atenuar a intenção agressiva, e isso segundo uma decomposição defensiva tão comparável, em seus princípios, a ilustrada pela trincheira e pela chicana, que ouvimos vários de nossos pacientes servirem-se, a respeito deles mesmos, de uma referencia metafórica a “fortificações ao estilo de Vauban”.
Quanto ao papel na intenção agressiva na fobia, ele é, por assim dizer, manifesto.
Portanto, não é que seja desfavorável reativar tal intenção na psicanálise.
O que procuramos evitar, através de nossa técnica, é que a intenção agressiva no paciente encontre o apoio de uma idéia atual de nossa pessoa, suficientemente elaborada para que possa organizar-se nas reações de oposição, denegação, ostentação e mentira que nossa experiência nos demonstra serem os modos característicos da instancia do eu no diálogo.
Caracterizo essa instancia, aqui, não pela construção teórica que dela fornece Freud em sua metapsicologia, como sistema percepção-consciência, mas pela essência fenomenológica que ele reconhecer como sendo a sua essência mais constante na experiência, sob o aspecto da Verneinung, e cujos dados ele nos recomenda apreciar no índice mais geral de uma inversão precedente ao juízo.
Em suma, designamos no eu o núcleo dado a consciência, mas opaco a reflexão, marcado por todas as ambigüidades que, da complacência a má-fé, estruturam o sujeito humano a vivencia passional; esse (eu) que, por confessar seu artificialismo a critica existencial, opõe sua irredutível inércia de pretensões e desconhecimento a problemática concreta da realização do sujeito.
Longe de atacá-lo de frente, a maiêutica analítica adota um rodeio que equivale, em suma, a induzir no sujeito uma paranóia dirigida. Com efeito, um dos aspectos da ação analítica é efetuar a projeção do que Melaine Klein denomina de maus objetos internos, mecanismo paranóico, por certo, mas aqui bem sistematizado, filtrado de alguma forma e estancado sob medida.
E é esse o aspecto de nossa práxis que corresponde a categoria do espaço, contanto que ai se compreenda este espaço imaginário onde se desenvolve a dimensão dos sintomas que os estrutura como ilhotas excluídas, escotomas inertes ou automismos parasitários nas funções da pessoa.
A outra dimensão, temporal, correspondem a angustia e sua incidência, seja ela patente, no fenômeno da fuga ou da inibição, seja latente, quando só aparece com a imago motivadora.
Mais uma vez, repetimos, essa imago só se revela desde que nossa atitude ofereça ao sujeito o espelho puro de uma superfície sem acidentes.
Mas, que se imagine, para nos compreender, o que aconteceria com um paciente que visse em seu analista uma réplica exata dele mesmo. Qualquer um sente que o excesso de tensão agressiva criaria tamanho obstáculo a manifestação da transferência, que seu efeito útil só poderia produzir-se com extrema lentidão, e é isso que acontece em certas análises para fins didáticos. Se a imaginarmos, em ultima instância, vivenciada a maneira da estranheza própria das apreensões do duplo, essa situação desencadearia uma angústia incontrolável.

TESE IV: A agressividade é a tendência correlativa a um modo de identificação a que chamamos narcísico, e que determina a estrutura formal do eu do homem e do registro de entidades característico de seu mundo

A experiência subjetiva da análise inscreve prontamente seus resultados na psicologia concreta. Indiquemos apenas o que ela traz para a psicologia das emoções, mostrando a significação comum de estados tão diversos quanto o medo fantasístico, a cólera, a tristeza ativa ou a fadiga psicastênica.
Passar agora da subjetividade da intenção para a noção de uma tendência a agressão é dar o salto da fenomenologia de nossa experiência para a metapsicologia.
Mas, esse salto não manifesta outra coisa senão uma exigência do pensamento que, para objetivar agora o registro das reações agressivas, e na impossibilidade de seriá-lo numa variação quantitativa, tem que integrá-lo numa formula de equivalência. E é assim que nos servimos dele com a noção de libido.
A tendência agressiva se revela fundamental numa certa série de estados significativos da personalidade, que são as psicoses paranóides e paranóicas.
Sublinhei em meus trabalhos que seria possível coordenar, por sua seriação estritamente paralela, a qualidade da reação agressiva que se pode esperar de tal forma de paranóia com a etapa da gênese mental representada pelo delírio sintomático dessa mesma forma. Relação que se afigura ainda mais profunda quando – mostrei isso a respeito de uma forma curável, a paranóia de autopunição – o ato agressivo desfaz a construção delirante.
Assim se coloca em série, de maneira continua, a reação agressiva, desde a explosão tão brutal quanto imotivada do ato, passando por toda a gama das formas de beligerância, até a guerra fria das demonstrações interpretativas, paralelamente as imputações de nocividade que, sem falar do kakon obscuro que a que o paranóide refere sua discordância de qualquer contato vital, vão-se escalonando, desde a motivação do veneno, retirada do registro de um organicismo muito primitivo, até a motivação mágica do malefício, telepática, da influência, lesiva, da intrusão física, abusiva, do desvio da intenção, espoliadora, do roubo do segredo, profanatória, da violação da intimidade, jurídica, do preconceito, persecutória, da espionagem e da intimidação, prestigiosa, da difamação e do ataque a honra, reivindicatória, do prejuízo e da exploração.
Essa série, onde encontramos todos os invólucros sucessivos do status biológico e social da pessoa, mostrei que ela se prendia, em cada caso, a uma organização original das formas do eu e do objeto, que são igualmente afetados por ela em sua estrutura, inclusive nas categorias espacial e temporal em que eles se constituem, vividos como eventos numa perspectiva de miragens,como afecções com um toque de estereotipia que suspende sua dialética.
Janet, que mostrou tão admiravelmente a significação dos sentimentos de perseguição como momentos fenomenológicos das condutas sociais, não lhes aprofundou o caráter comum, que é precisamente que eles se constituem por uma estagnação de um desses momentos, semelhante, em estranheza, a aparência dos atores quando o filme pára de rodar.
Ora, essa estagnação formal é parenta da estrutura mais geral do conhecimento humano: aquela que constitui o eu e os objetos mediante atributos de permanência, identidade e substancialidade, em suma, sob a forma de entidades ou “coisas” muito diferentes das Gestalten que a experiência nos permite isolar no domínio do campo disposto segundo as linhas do desejo animal.
Efetivamente, essa fixação formal que introduz uma certa ruptura de plano, uma certa discordância entre o organismo do homem e seu Umwelt, é a própria condição que amplia indefinidamente seu mundo e sua potencia, dando a seus objetos sua polivalência instrumental e sua polifonia simbólica, bem como seu potencial de armamento.
O que chamei de conhecimento paranóico demonstra pois corresponder, em suas formas mais ou menos arcaicas, a certos momentos críticos que escandem a historia da gênese mental do homem e que representam, cada um, uma etapa da identificação objetivante.
Podemos entrever, pela simples observação, suas etapas na criança, onde uma Charlotte Buhler, uma Elsa Kohler e, depois delas, a escola de Chicago mostram-nos vários planos de manifestações significativas, mas as quais somente a experiência analítica pode dar seu valor exato, permitindo reintegrar nelas a relação subjetiva.
O primeiro plano mostra-nos que a experiência de si próprio na criança de tenra idade, na medida em que ela se refere a seu semelhante, desenvolve-se a partir de uma situação vivida como indiferenciada. Assim, por volta dos oito meses de idade, nos confrontos entre crianças – que, convém notar, para serem fecundos, quase que só permitem dois meses de distancia etária -, vemos os gestos de ações fictícias com que um sujeito acompanha o esforço imperfeito do gesto do outro, confundindo sua aplicação distinta: as sincronias da captação especular, mais notáveis ainda por se anteciparem a completa coordenação dos aparelhos motores que elas empregam.
Assim, a agressividade que se manifesta nas retaliações de tapas e socos não pode ser apenas tomada por uma manifestação lúdica de exercício das forcas e de seu emprego para o referenciamento do corpo. Ela deve ser compreendida numa ordem de coordenação mais ampla: a que subordinara as funções de posturas tônicas e de tensão vegetativa a uma relatividade social cuja prevalência Walton sublinhou consideravelmente na constituição expressiva das emoções humanas.
Mais ainda, eu mesmo creio ter conseguido destacar que a criança, nessas ocasiões, antecipa no plano mental a conquista da unidade funcional de seu próprio corpo, ainda inacabado, nesse momento, no plano da motricidade voluntária.
Há mais uma primeira captação pela imagem, onde se esboça o primeiro momento da dialética das identificações. Ele esta ligado a um fenômeno de Gestalt, a percepção muito precoce, na criança, da forma humana, forma esta que, como sabemos, fixa seu interesse desde os primeiros meses e mesmo, no que tange ao rosto humano, desde o décimo dia de vida. Mas o que demonstra o fenômeno de reconhecimento que implica a subjetividade são os sinais de jubilação triunfante e o ludismo de discernimento que caracterizam, desde o sexto mês, o encontro com sua imagem no espelho pela criança. Essa conduta contrasta vivamente com a indiferença manifestada pelos animais que percebem essa imagem, como o chimpanzé, por exemplo, quando eles tem a experiência de sua inutilidade objetal, e ganha ainda mais destaque por se produzir numa idade em que a criança ainda apresenta, quanto ao nível de sua inteligência instrumental, um atraso em relação ao chimpanzé, com quem só se iguala aos onze meses.
O que chamei de estádio do espelho tem o interesse de manifestar o dinamismo afetivo pelo qual o sujeito se identifica primordialmente com a Gestalt visual de seu próprio corpo: ela é, em relação a descoordenação ainda muito profunda de sua própria motricidade, uma unidade ideal, uma imago salutar; é valorizada por todo o desamparo original, ligado a discordância intra-orgânica e relacional do filhote do homem durante os primeiros seis meses de vida, nos quais ele traz os sinais, neurológicos e humorais, de uma prematuração natal fisiológica.
E essa captação pela imago da forma humana, mais do que uma Einfuhlung cuja ausência tudo vem demonstrar na primeira infância, que domina, entre os seis meses e os dois anos e meio, toda a dialética do comportamento da criança na presença de seu semelhante. Durante todo esse período, registram-se as reações emocionais e os testemunhos articulados de um transitivismo normal. A criança que bate diz que bateram nela, a que vê cair, chora. Do mesmo modo, e numa identificação com o outro que ela vive toda a gama das reações de imponência e ostentação, cuja ambivalência estrutural suas condutas revelam com evidencia, escravo identificado com o déspota, ator com o espectador, seduzido com o sedutor.
Há nisso uma espécie de encruzilhada estrutural onde devemos acomodar nosso pensamento, para compreender a natureza da agressividade no homem e sua relação com o formalismo de seu eu e de seus objetos. Essa relação erótica, em que o individuo humano se fixa numa imagem que o aliena em si mesmo, eis ai a energia e a forma donde se origina a organização passional que ele irá chamar de seu eu.
Essa forma se cristalizara, com efeito, na tensão conflitiva interna ao sujeito, que determina o despertar de seu desejo pelo objeto do desejo do outro: aqui, o concurso primordial se precipita numa concorrência agressiva, e é dela que nasce a tríade do outro, do eu e do objeto, que, fendendo o espaço da comunhão especular, inscreve-se nela segundo um formalismo que lhe é próprio, e que domina a tal ponto a Einfuhlung afetiva que a criança nessa idade pode desconhecer a identidade das pessoas que lhe são mais familiares, caso elas lhe apareçam num meio inteiramente modificado.
Mas, se já desde a origem o eu se afigura marcado por essa relatividade agressiva, onde os espíritos carentes de objetividade poderão reconhecer as ereções emocionais provocadas no animal a quem um desejo vem solicitar lateralmente, no exercício de seu condicionamento experimental, como não conceber que cada grande metamorfose instintiva a escandir a vida do individuo irá novamente questionar sua delimitação, feita da conjunção da historia do sujeito com o impensável inatismo de seu desejo?
Eis por que nunca, a não ser num limite do qual os maiores gênios jamais puderam aproximar-se, o eu do homem é redutível a sua identidade vivida: e, nas disrupções depressivas dos revezes vivenciados da inferioridade, ele gera essencialmente as negações mortais que o fixam em seu formalismo. “Não sou nada do que me acontece. Não és nada que tenha valor.”
Do mesmo modo,confundem-se os dois momentos em que o sujeito nega a si mesmo e acusa o outro, e neles descobrimos a estrutura paranóica do eu que encontra sua analogia nas negações fundamentais valorizadas por Freud nos três delírios, o do ciúme, o da erotomania, e o de interpretação. Trata-se, justamente, do delírio da bela alma misantrópica, que rechaça para o mundo a desordem que compõem seu ser.
A experiência subjetiva deve ser habilitada de pleno direito a reconhecer o nó central da agressividade ambivalente que nosso momento cultural nos dá sob a forma dominante do ressentimento, inclusive em seus aspectos mais arcaicos na criança. Assim, por ter vivido num momento semelhante e por não ter tido que sofrer com a resistência behavorista, no sentido que nos é próprio, santo Agostinho antencipou-se a psicanálise, dando-nos uma imagem exemplar de tal comportamento nestes termos: “Vidi ego et expertus sum zelantem parvulum: nondum loquebatur et intuebatur pallidus amaro aspectu conlactaneum suum” – “Vi com meus olhos e conheci bem uma criancinha tomada de ciúme: ainda não falava e já contemplava, pálida e com uma expressão amarga, seu irmão de leite.” Assim liga ele imperecivelmente, a etapa infans (anterior a fala) da primeira infância, a situação da absorção especular: a criança contemplava, reação emocional; inteiramente pálida, reativação das imagens da frustração primordial; e com uma expressão amarga, que são as coordenadas psíquicas e somáticas da agressividade original.
Foi somente a sra. Melaine Klein que, trabalhando com a criança bem no limite do surgimento da linguagem, ousou projetar a experiência subjetiva nesse período anterior, onde, no entanto, a observação nos permite afirmar sua dimensão, no simples fato, por exemplo, de que uma criança que não fala reage diferentemente a um castigo e a uma brutalidade.
Através dela, ficamos sabendo da função do recinto imaginário primordial formado pela imago do corpo materno; através dela temos a cartografia, desenhada pela mão das próprias crianças, de seu império interior, e o atlas histórico das divisões intestinas em que as imagos do pai e dos irmãos reais ou virtuais, em que a agressão voraz do próprio sujeito, negociam sua dominação deletéria sobre suas regiões sagradas. Sabemos também da persistência, no sujeito, da sombra dos maus objetos internos, ligados a alguma associação acidental (para usar um termo do qual seria bom valorizarmos o sentido orgânico que nossa experiência lhe confere, em oposição ao sentido abstrato que ele preserva da ideologia humana). Através disso, podemos compreender por quais impulsos estruturais a reevocação de certas personae imaginárias e a reprodução de certas inferioridades situacionais podem desnortear , da maneira mais rigorosamente previsível, despedaçadora na imago da identificação original.
Ao nos mostrar a primordialidade da “posição depressiva”, o extremo arcaísmo da subjetivação de um kakon, Melanie Klein alarga os limites em que podemos ver em ação a função subjetiva da identificação e, particularmente, permite-nos situar como totalmente original a formação primaria do supereu.
Mas, precisamente, há um interesse em delimitar a orbita em que se ordenam, para nossa reflexão teórica, as relações, que se acham longe de estar todas elucidadas, da tensão de culpa da nocividade oral, da fixação hipocondríaca e ate mesmo desse masoquismo primordial que excluímos de nossos propósitos para disso tudo isolar a noção de uma agressividade ligada a relação narcísica e as estruturas de desconhecimento e objetivação sistemáticos que caracterizam a formação do eu.
A Urbild dessa formação, embora alienante por sua função externalizadora, corresponde uma satisfação própria, que se prende a integração de uma desordem orgânica original, satisfação esta que convém conceber na dimensão de uma deiscência vital constitutiva do homem, e que torna impensável a idéia de um meio que lhe seja previamente formado, libido “negativa” que faz resplandecer novamente a idéia heraclitiana da Discórdia, sustentada pelo efésio como anterior a harmonia.
Nenhuma duvida de que ela provem da “paixão narcísica”, desde que se conceba o eu segundo a noção subjetiva que aqui promovemos por ser conforme ao registro de nossa experiência; as dificuldades teóricas encontradas por Freud parecem-nos prender-se, com efeito, a esta miragem de objetivação, herdada da psicologia clássica, que se constitui pela idéia do sistema percepção-consciencia, e onde de repente parece ignorada a realidade de tudo o que o eu negligencia, escotomiza e desconhece nas sensações que o fazem reagir a realidade, bem como de tudo o que ele ignora, silencia e ata nas significações que recebe da linguagem: desconhecimento bastante surpreendente a desencaminhar o próprio homem que soubera forçar os limites do inconsciente pelo poder de sua dialética.
Assim como a opressão insensata do supereu esta na raiz dos imperativos motivados da consciência moral, a paixão desvairada, que especifica o homem, por imprimir na realidade sua imagem, é o fundamento obscuro das mediações racionais da vontade.
A noção de uma agressividade como tensão correlata a estrutura narcísica no devir dos sujeito permite compreender, numa função formulada com muita simplicidade, toda sorte de acidentes e atipias desse devir.
Indicaremos aqui como concebemos sua ligação dialética com a função do complexo de Édipo. Esta, em sua normalidade, e de sublimação, que designa muito exatamente uma reformulação identificatória do sujeito e, como escreveu Freud tão logo sentiu a necessidade de uma coordenação “tópica” dos dinamismos psíquicos, uma identificação secundária, por introjeção da imago do genitor do mesmo sexo.
A energia dessa identificação é dada pelo primeiro surgimento biológico da libido genital. Mas é claro que o efeito estrutural de identificação com o rival não é evidente, a não ser no plano da fábula, e só e concebível se tiver sido preparado por uma identificação primária que estrutura o sujeito como rival de si mesmo. De fato, o toque de impotência biológica encontra-se aqui, assim como o efeito de antecipação característico da gênese do psiquismo humano, na fixação de um “ideal” imaginário, que a análise mostrou decidir sobre a conformação do “instinto” ao sexo fisiológico do individuo. Ponto, diga-se de passagem, cuja importância antropológica seria impossível sublinharmos em demasia. Mas, o que nos interessa aqui é a função, que chamaremos apaziguadora, do ideal do eu, a conexão de sua normatividade libidinal com uma normatividade cultural, ligada desde o alvorecer da história a imago do pai. Nisso jaz, evidentemente, a importância preservada por uma obra de Freud, Totem e tabu, malgrado o círculo mítico que a vicia, na medida em que ela faz derivar do evento mitológico, isto é, do assassinato do pai, a dimensão subjetiva que lhe dá sentido, a culpa.
Freud, com efeito, mostra-nos que a necessidade de uma participação que neutralize o conflito, inscrito, após o assassinato, na situação de rivalidade entre os irmãos, é o fundamento da identificação com o Totem paterno. Assim, a identificação edipiana é aquela através da qual o sujeito transcende a agressividade constitutiva da primeira individuação subjetiva. Insistimos em outra ocasião no passo que ela constitui na instauração dessa distância pela qual, com sentimentos da ordem do respeito, realiza-se toda uma assunção afetiva do próximo.
Somente a mentalidade antidialética de uma cultura que, por ser dominada por fins objetivantes, tende a reduzir ao ser do eu toda a atividade subjetiva, pode justificar o assombro produzido num van den Steinen pelo bororo que profere: “Eu sou uma arara”. E todos os sociólogos da “mentalidade primitiva” esfalfam-se em torno dessa profissão de identidade, a qual, no entanto, nada tem de mais surpreendente para a reflexão senão afirmar “Eu sou médico”, ou “Sou cidadão da republica francesa”, e com certeza apresenta menos dificuldades lógicas do que promulgar “Eu sou um homem”, o que, em seu pleno valor, só pode querer dizer isto: “Sou semelhante aquele em quem, ao reconhecê-lo como homem, baseio-me para me reconhecer como tal.” Essas diversas fórmulas só são compreensíveis, no final das contas, em referencia a verdade do ”Eu é um outro” , menos fulgurante na intuição do poeta do que evidente aos olhos do psicanalista.
Quem, senão nós, há de questionar o status objetivo desse (eu) que uma evolução histórica própria de nossa cultura tende a confundir com o sujeito? Essa anomalia mereceria ser manifestada em suas incidências particulares em todos os planos da linguagem, e, para começar, no sujeito gramatical da primeira pessoa em nossas línguas, nesse “eu amo” que hipostasia a tendência de um sujeito que a nega. Miragem impossível, em formas lingüísticas entre as quais se alinham as mais antigas, e onde o sujeito aparece fundamentalmente na posição de determinativo ou de instrumento da ação.
Deixemos por aqui a critica de todos os abusos do cogito ergo sum, para lembrar que o eu, em nossa experiência, representa o centro de todas as resistências ao tratamento dos sintomas.
Tinha de acontecer que a analise, depois de haver enfatizado a reintegração das tendências excluídas pelo eu, como subjacentes aos sintomas que ela havia atacado inicialmente, em sua maioria ligados aos fracassos da identificação edipiana, viesse a desvendar a dimensão “moral” do problema.
E foi paralelamente que vieram para o primeiro plano, de um lado, o papel desempenhado pelas tendências agressivas na estrutura dos sintomas e da personalidade, e de outro, toda sorte de concepções “valorizadas” da libido liberada, dentre as quais uma das primeiras deveu-se aos psicanalistas franceses, sob o registro da oblatividade.
Está claro, com efeito, que a libido genital se exerce no sentido de um ultrapassamento, aliás cego, do individuo em prol da espécie, e que seus efeitos sublimadores na crise do Édipo estão na origem de todo o processo de subordinação cultural do homem. Não obstante, seria impossível enfatizarmos em demasia o caráter irredutível da estrutura narcísica, bem como a ambigüidade de uma noção que tenderia a desconhecer a constância da tensão agressiva em toda vida moral que comporte a sujeição a essa estrutura: ora, nenhuma oblatividade poderia liberar seu altruísmo. E foi por isso que La Rochefoucauld pôde formular sua máxima, na qual seu rigor harmoniza-se com o tema fundamental de seu pensamento, sobre a incompatibilidade entre o casamento e os prazeres.
Deixaríamos degradar-se a contundência de nossa experiência ao nos enganarmos, senão a nossos pacientes, quanto a alguma harmonia preestabelecida que isentasse de qualquer indução agressiva, no sujeito, os conformismos sociais que a redução dos sintomas torna possíveis.
E uma perspicácia diferente mostraram os teóricos da Idade Média, que debatiam o problema do amor entre dois pólos, o de uma teoria “física” e o de uma teoria “extática”, ambos implicando a reabsorção do eu do homem, quer por sua reintegração num bem universal, quer pela efusão do sujeito para um objeto sem alteridade.
E é em todas as fases genéticas do individuo, em todos os graus de realização humana em sua pessoa, que encontramos esse momento narcísico no sujeito, num antes em que ele deve assumir uma frustração libidinal e num depois em que ele transcende a si mesmo numa sublimação normativa.
Essa concepção faz-nos compreender a agressividade implicada nos efeitos de todas as regressões, de todos os abortamentos, de todas as recusas do desenvolvimento típico do sujeito, e especialmente no plano da realização sexual, ou,mais exatamente, no interior de cada uma das grandes fases determinadas na vida humana pelas metamorfoses libidinais cuja grande função a analise demonstrou: desmame. Édipo, puberdade, maturidade, ou maternidade, ou mesmo, clímax involutivo. E dissemos, muitas vezes, que a ênfase inicialmente depositada pela doutrina nas represálias agressivas do conflito edipiano no sujeito correspondeu ao fato de que os efeitos do complexo foram inicialmente percebidos nos fracassos de sua solução.
Não e preciso salientar que uma teoria coerente da fase narcísica esclarece a realidade da ambivalência própria das “pulsões parciais” da escopofilia, do sadomasoquismo e da homossexualidade, assim como o formalismo estereotipado e cerimonial da agressividade que neles se manifesta: visamos aqui o aspecto, freqüentemente muito pouco “reconhecido”, da apreensão do outro no exercício de algumas dessas perversões, a seu valor subjetivo, a rigor bem diferente das reconstruções existenciais, alias muito cativantes, que um Jean-Paul Sartre soube fornecer dela.
Quero ainda indicar de passagem que a função decisiva que conferimos a imago do corpo próprio, na determinação da fase narcísica, permite compreender a relação clinica entre as anomalias congênitas da lateralização funcional (sinistrismo) e todas as formas de inversão da normalização sexual e cultural. Isso nos lembra o papel atribuído a ginástica no ideal do “belo e bom” da educação antiga, e nos leva a tese social com que concluimos.

TESE V: Tal noção da agressividade, como uma das coordenadas intencionais do eu humano, e especialmente relativa a categoria do espaço, faz conceber seu papel na neurose moderna e no mal-estar da civilização

Queremos aqui apenas descortinar uma perspectiva sobre os vereditos que nos permite nossa experiência na ordem social atual. A preeminência da agressividade em nossa civilização já estaria suficientemente demonstrada pelo fato de ela ser habitualmente confundida, na moral mediana, com a virtude da força. Compreendida, mui justificadamente, como significativa de um desenvolvimento do eu, ela é tida como sendo de um uso social indispensável, e tão comumente aceita nos costumes que, para aquilatar sua particularidade cultural, é preciso nos imbuirmos do sentido e das virtudes eficazes de uma pratica como a do jang na moral publica e privada dos chineses.
Ainda que isso fosse supérfluo, o prestigio da idéia da luta pela vida seria suficientemente atestado pelo sucesso de uma teoria que conseguiu tornar aceitável a nosso pensamento, como explicação valida dos desenvolvimentos da vida, uma seleção baseada na simples conquista do espaço pelo animal. Do mesmo modo, o sucesso de Darwin parece dever-se a ele haver projetado as predações da sociedade vitoriana e a euforia econômica que sancionou a devastação social que ela inaugurou em escala planetária, e a havê-las justificado pela imagem de um laissez-faire dos devoradores mais fortes em sua competição por sua presa natural.
Antes dele, no entanto, Hegel havia fornecido a teoria perene da função própria da agressividade na ontologia humana, parecendo profetizar a lei férrea de nossa época. Foi do conflito entre o Senhor e o Escravo que ele deduziu todo o progresso subjetivo e objetivo de nossa historia, fazendo surgir dessas crises as sínteses que representam as formas mais elevadas do status da pessoa no Ocidente, do estóico ao cristão, e ate ao futuro cidadão do Estado Universal.
Aqui, o individuo natural é tido por nada, já que o sujeito humano efetivamente o é diante do Senhor absoluto que lhe é dado na morte. A satisfação do desejo humano só e possível se mediatizada pelo desejo e pelo trabalho do outro. Se, no conflito entre o Senhor e o Escravo, é o reconhecimento do homem pelo homem que esta em jogo, é também numa negação radical dos valores naturais que ele é promovido, ou seja, que se exprime na tirania estéril do senhor ou na tirania fecunda do trabalho.
A relativização de nossa sociologia, pela compilação cientifica das formas culturais que destruímos no mundo, e igualmente as análises, marcadas por traços verdadeiramente psicanalíticos, em que a sabedoria de um Platão nos mostra a dialética comum as paixões da alma e da pólis, podem esclarecer-nos sobre a razão dessa barbárie. Trata-se, para dize-lo no jargão que corresponde a nossas abordagens das necessidades subjetivas do homem, da ausência crescente de todas as saturações do supereu e do ideal do eu que são realizadas em todo tipo de formas orgânicas das sociedades tradicionais, formas estas que vão dos ritos da intimidade cotidiana as festas periódicas em que se manifesta a comunidade. Já não as conhecemos senão sob os aspectos mais nitidamente degradados. Mais ainda, por abolir a polaridade cósmica dos princípios masculino e feminino, nossa sociedade conhece todas as incidências psicológicas próprias do chamado fenômeno moderno da luta entre os sexos. Comunidade imensa, no limite entre a anarquia “democrática” das paixões e seu nivelamento desesperado pelo “grande zangão alado” da tirania narcísica, está claro que a promoção do eu em nossa existência leva, conforme a concepção utilitarista do homem que a secunda, a realizar cada vez mais o homem como individuo, isto é, num isolamento anímico sempre mais aparentado com sua derrelição original.
Correlativamente, ao que parece, ou seja, por razoes cuja contingência histórica repousa numa necessidade que algumas de nossas considerações permitem discernir, estamos engajados num projeto técnico em escala da espécie: o problema é saber se o conflito entre o Senhor e o Escravo encontrará sua solução no serviço do autômato, se uma psicotécnica que já se revela prenhe de aplicações cada vez mais precisas se empenhará em fornecer condutores de bólidos e supervisores de centrais reguladoras.
A noção do papel da simetria espacial na estrutura narcísica do homem é essencial para lançar as bases de uma análise psicológica do espaço, da qual só podemos aqui indicar o lugar. Digamos que a psicologia animal revelou-nos que a relação do individuo com um certo campo espacial é, em algumas espécies, socialmente demarcada, de uma maneira que a eleva a categoria do pertencimentos subjetivo. Diremos que é a possibilidade subjetiva da projeção especular de tal campo no campo do outro que confere ao espaço humano sua estrutura originalmente “geométrica”, estrutura que preferíamos chamar de caleidoscópica.
Assim é, pelo menos, o espaço onde se desenvolve o conjunto de imagens do eu, e que vem juntar-se ao espaço objetivo da realidade. Mas porventura ele nos oferece uma base garantida? No próprio “espaço vital” onde se desenvolve a competição humana sempre mais acirrada, um observador estelar de nossa espécie concluiria por necessidades de evasão de efeitos singulares. Mas, acaso a extensão conceitual a que acreditamos ter conseguido reduzir o real na parece recusar ainda mais seu apoio ao pensamento fisicalista? Assim, por ter levado nosso domínio aos confins da matéria, não ira esse espaço “realizado” , que nos faz parecerem ilusórios os grandes espaços imaginários onde se movimentavam as livres fantasias dos antigos sábios, por sua vez, desvanecer-se num bramido do fundo universal?
Sabemos, de qualquer modo, por onde procede nossa adaptação a essas exigências, e que a guerra revela-se cada vez mais a parteira obrigatória e necessária de todos os progressos de nossa organização. Seguramente, a adaptação dos adversários em sua oposição social parece progredir para um concurso de formas, porem podemos indagar-nos se este é motivado por uma aliança na necessidade ou pela identificação cuja imagem Dante nos mostra, em seu Inferno, num beijo mortal.
Alem do mais, não parece que o individuo humano, como material de tal luta, seja absolutamente infalível. E a detecção dos “maus objetos internos”, responsáveis pelas reações (que podem ser muito caras em equipamentos) de inibição e escalada dos acontecimentos, detecção a qual recentemente aprendemos a proceder mediante os elementos das tropas de choque, da aviação de caça, do pára-quedas e dos grupos de assalto, prova que a guerra, depois de muito nos haver ensinado sobre a gênese das neuroses, mostra-se talvez exigente demais em matéria de sujeitos cada vez mais neutros numa agressividade cujo patético é indesejável.
Não obstante, também quanto a isso temos algumas verdades psicológicas a introduzir, quais sejam, o quanto o pretenso “instinto de conservação” do eu tende a enfraquecer na vertigem da dominação do espaço e, sobretudo, o quanto medo da morte, do “Senhor absoluto”, suposto na consciência por toda uma tradição filosófica desde Hegel, esta psicologicamente subordinado ao medo narcísico da lesão do corpo próprio.
Não nos parece vão ter sublinhado a relação mantida com a dimensão do espaço por uma tensão subjetiva, que, no mal-estar da civilização, vem corroborar a da angustia, tão humanamente abordada por Freud, e que se desenvolve na dimensão temporal. Também a esta esclareceríamos facilmente por significações contemporâneas de duas filosofias que corresponderiam as que acabamos de evocar: a de Bergson, por sua insuficiência naturalista, e a de Kierkegaard, por sua significação dialética.
Somente no cruzamento dessas duas tensões dever-se-ia contemplar a assunção, pelo homem, de seu despedaçamento original, mediante o que podemos dizer que a cada instante ele constitui seu mundo através de seu suicídio, e cuja experiência psicológica Freud teve a audácia de formular, por mais paradoxal que seja sua expressão em termos biológicos, isto é, como “instinto de morte”.
No homem “liberado” da sociedade moderna, eis que esse despedaçamento revela, at é o fundo do ser, sua pavorosa fissura. E a neurose de autopunição, com os sintomas histérico-hipocondríacos de suas inibições funcionais, com as formas psicastênicas de suas desrealizações do outro e do mundo, com suas conseqüências sociais de fracasso e de crime. E essa vitima comovente, evadida de alhures, inocente, que rompe com o exílio que condena o homem moderno a mais assustadora galé social, que acolhemos quando ela vem a nós; é para esse ser de nada que nossa tarefa cotidiana consiste em reabrir o caminho de seu sentido, numa fraternidade discreta em relação a qual sempre somos por demais desiguais.